domingo, 12 de julho de 2026

ENTRE O RECÔNCAVO E AS MINAS GERAIS: AS HISTÓRIAS QUE A FARINHA CONTA

Uma jornada de afeto, sotaques cruzados e a força das nossas raízes profundas.

Para quem nasce e se cria no interior da Bahia, no Vale do Jiquiriçá ou nas beiras do Recôncavo, a palavra "farinha" é absoluta. Não precisa de sobrenome. Se alguém em Amargosa diz que vai ali comprar farinha, todo mundo já sabe: é farinha de mandioca. A de trigo só ganha nome se faltar na pizzaria, e a de milho só entra na conversa com contexto. Para o dia a dia, a única que reina sozinha no prato é a de mandioca.

Mas na minha infância, a mesa de casa tinha um tempero diferente. Minha mãe não dizia apenas farinha. Com frequência, ela a chamava por um nome que, para os meus ouvidos de criança, soava quase como um chamado para o combate: farinha de guerra. Era um termo compartilhado por ela e por alguns poucos idosos da nossa região, enquanto os mais novos iam deixando aquela expressão esquecida no passado.

Por muito tempo, aquela frase ficou martelando na minha cabeça, junto com tantas outras manias da minha mãe. Ela tinha um sotaque misturado, um jeito de falar que puxava o sotaque de Minas, e costumes culinários como o tradicional biscoito de araruta, que pareciam cruzar a fronteira do nosso estado. Eu me perguntava: será que essa tal "farinha de guerra" era uma expressão lá da terra dela, ou era uma herança daqui da minha região?

A resposta para essa dúvida me fez viajar no mapa e na história.

Primeiro, entendi o lado mineiro de minha mãe. Ela veio de Irundiara, um distrito de Jacaraci que fica bem ali, colado no Norte de Minas. Para ela, Salvador sempre foi uma realidade distante, quase outro país. No mapa real e no mapa da vida dela, era muito mais fácil achar transporte e viajar para Belo Horizonte do que para a capital baiana. A proximidade geográfica fez com que ela trouxesse na bagagem cultural esse abraço forte entre a Bahia e as Minas Gerais.

Mas a grande surpresa veio quando fui pesquisar a origem da "farinha de guerra". Descobri que a expressão não era mineira, mas sim uma herança profunda das nossas raízes indígenas e coloniais.

Séculos atrás, muito antes de Amargosa ou Jacaraci existirem no mapa, os povos originários já dominavam a arte de processar a mandioca. Eles criaram uma técnica para torrar a farinha até que ela ficasse completamente seca e dura. Faziam isso por pura estratégia: aquela farinha não mofava, não estragava e resistia ao tempo e à umidade. Era o alimento perfeito para as longas jornadas e para os períodos de conflito. Os colonizadores e as tropas militares logo perceberam o valor desse superalimento e adotaram o método (e o nome) para sustentar seus soldados em suas longas expedições pelo território brasileiro.

Assim, aquela expressão que minha mãe repetia na cozinha de casa conectava, sem que eu soubesse, dois mundos: a história de resistência dos antigos combatentes da nossa terra e a geografia viva de uma Bahia que faz fronteira com o coração de Minas.

(Cristovão Augusto, 12/07/2026)

 

0 comments:

CURTA!