Uma jornada de
afeto, sotaques cruzados e a força das nossas raízes profundas.
Para quem nasce e
se cria no interior da Bahia, no Vale do Jiquiriçá ou nas beiras do Recôncavo,
a palavra "farinha" é absoluta. Não precisa de sobrenome. Se alguém
em Amargosa diz que vai ali comprar farinha, todo mundo já sabe: é farinha de mandioca.
A de trigo só ganha nome se faltar na pizzaria, e a de milho só entra na
conversa com contexto. Para o dia a dia, a única que reina sozinha no prato é a
de mandioca.
Mas na minha
infância, a mesa de casa tinha um tempero diferente. Minha mãe não dizia apenas
farinha. Com frequência, ela a chamava por um nome que, para os meus ouvidos de
criança, soava quase como um chamado para o combate: farinha de guerra. Era um
termo compartilhado por ela e por alguns poucos idosos da nossa região,
enquanto os mais novos iam deixando aquela expressão esquecida no passado.
Por muito tempo,
aquela frase ficou martelando na minha cabeça, junto com tantas outras manias
da minha mãe. Ela tinha um sotaque misturado, um jeito de falar que puxava o
sotaque de Minas, e costumes culinários como o tradicional biscoito de araruta,
que pareciam cruzar a fronteira do nosso estado. Eu me perguntava: será que
essa tal "farinha de guerra" era uma expressão lá da terra dela, ou
era uma herança daqui da minha região?
A resposta para
essa dúvida me fez viajar no mapa e na história.
Primeiro, entendi
o lado mineiro de minha mãe. Ela veio de Irundiara, um distrito de Jacaraci que
fica bem ali, colado no Norte de Minas. Para ela, Salvador sempre foi uma
realidade distante, quase outro país. No mapa real e no mapa da vida dela, era
muito mais fácil achar transporte e viajar para Belo Horizonte do que para a
capital baiana. A proximidade geográfica fez com que ela trouxesse na bagagem
cultural esse abraço forte entre a Bahia e as Minas Gerais.
Mas a grande
surpresa veio quando fui pesquisar a origem da "farinha de guerra".
Descobri que a expressão não era mineira, mas sim uma herança profunda das
nossas raízes indígenas e coloniais.
Séculos atrás,
muito antes de Amargosa ou Jacaraci existirem no mapa, os povos originários já
dominavam a arte de processar a mandioca. Eles criaram uma técnica para torrar
a farinha até que ela ficasse completamente seca e dura. Faziam isso por pura
estratégia: aquela farinha não mofava, não estragava e resistia ao tempo e à
umidade. Era o alimento perfeito para as longas jornadas e para os períodos de
conflito. Os colonizadores e as tropas militares logo perceberam o valor desse
superalimento e adotaram o método (e o nome) para sustentar seus soldados em
suas longas expedições pelo território brasileiro.
Assim, aquela
expressão que minha mãe repetia na cozinha de casa conectava, sem que eu
soubesse, dois mundos: a história de resistência dos antigos combatentes da
nossa terra e a geografia viva de uma Bahia que faz fronteira com o coração de
Minas.
(Cristovão
Augusto, 12/07/2026)
