quarta-feira, 2 de setembro de 2026

DIÁLOGOS INDICAM QUE VORCARO CONSULTOU MORAES SOBRE OPERAÇÃO DA PF ANTES DE PRISÃO

Relatório sigiloso, tornado público por decisão do ministro André Mendonça, detalha diálogos sobre pagamentos do Banco Master ao escritório Barci de Moraes, emissão de cartões para familiares e supostos contatos antes da prisão de Daniel Vorcaro. PGR pede anulação das apurações.

A divulgação de um relatório da Polícia Federal (PF) sobre análises no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, reacendeu o debate político e jurídico no Supremo Tribunal Federal (STF). As mensagens revelam detalhes da relação entre Vorcaro e um contato registrado em sua agenda como "Alexandre de Moraes", além de interações e movimentações financeiras com o escritório Barci de Moraes, chefiado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF.

O sigilo do documento foi retirado pelo ministro André Mendonça na última terça-feira (1/9). A decisão ocorreu após Mendonça conceder prazo para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestasse sobre a eventual abertura de investigação contra o magistrado.

Pagamentos prioritários e metadados do contrato

Os registros apontam que Vorcaro exigia prioridade máxima e tolerância zero a atrasos na quitação do contrato de R$ 131 milhões assinado em janeiro de 2024 entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes. Em mensagens a diretores e funcionários do banco, o empresário ordenava: "Esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia... É o pgto mais importante que temos", chegando a orientar repasses "sem nota" e "do jeito que for". Metadados da minuta do contrato anexados pela PF indicam que a versão final do documento teve a última edição realizada a partir do usuário do próprio ministro.

Adicionalmente, o relatório mapeou diálogos de outubro de 2025 envolvendo a emissão de cartões de crédito do Banco Master com limite de R$ 300 mil cada para dois filhos de Moraes, a pedido de um gestor do escritório de advocacia.

Consultas prévias e vazamento de operação

O relatório traz ainda indícios de que Vorcaro tentou articular apoio político e institucional perante órgãos como a PF e a PGR durante o agravamento da Crise no Banco Master, que culminou em sua liquidação pelo Banco Central.

Em episódios ocorridos às vésperas de sua prisão pela PF na Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, o controlador do banco questionava o contato atribuído ao ministro sobre prazos de eventuais mandados de prisão, a postura das autoridades monetárias e formas de bloquear ações judiciais. A PF registrou que as respostas diretas do interlocutor não ficavam salvas no dispositivo de Vorcaro por serem enviadas em formato de visualização única via aplicativo de mensagens, tendo sido recuperados apenas os prints armazenados pelo próprio empresário.

Outro Lado e Reação da PGR

Em nota, o escritório Barci de Moraes informou que submeteu o contrato à avaliação de compliance antes da assinatura para verificar possíveis impedimentos jurídicos relativos ao ministro Alexandre de Moraes. A banca afirmou que não havia ações do Banco Master sob relatoria do magistrado na Corte e que o ministro jamais julgo causas de interesse da instituição financeira, classificando os serviços advocatícios como regularmente prestados.

Por outro lado, o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se contra as determinações de Mendonça e requereu a anulação integral do inquérito. Segundo Gonet, a determinação para investigar autoridades sem requisição do Ministério Público ou iniciativa própria da Polícia Federal viola os limites pré-processuais e as regras de competência do magistrado.

Diante do impasse técnico e institucional, Mendonça destacou que o mérito das apurações e a validade das provas deverão ser deliberados publicamente pelo Plenário do STF, em data a ser definida pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin.

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