quinta-feira, 10 de outubro de 2019

"LENÇOL AZUL" POR TOSTA NETO


   Vai e vem de pessoas apressadas. Bagagens nas esteiras. Semblantes pensativos e fatigados. A todo momento, uma voz mecânica anuncia a próxima conexão aérea. Terminal de voos internacionais. Voo 717: São Paulo – Paris...
    “Ainda bem que fiquei na janela. Poderei contemplar o Atlântico. Meu coração pulsa de ansiedade. Desejo muito conhecer a capital francesa. Tentarei cochilar, mas sei que a decolagem atrapalhará meus planos. Mesmo assim, continuarei de olhos fechados...”
    “Sabia que não conseguiria cochilar. Só me resta observar a imensidão do oceano. [Pausa longa do pensamento]. Essa energia é familiar, mas não a conheço. O perfume dela é maravilhoso. Poderia puxar conversar. Melhor não. Ela está ocupada na leitura. Sinto um leve toque no meu ombro...”
    – Bom dia. Perdão pelo incômodo. Você tem um carregador de celular disponível?
    – Tenho sim. Um minuto.
    – Está bem.
    – Aqui.
    – Obrigada!
    – Por nada! Poderia dar uma olhadinha nesse livro?
    – Claro. É um livro de contos.
    – Gosto muito deste tipo de leitura. O meu contista preferido é Machado de Assis.
    – O meu também.
    “A voz e o jeito de falar são familiares. Tenho a leve sensação que a conheço. Sinto uma conexão entre nós dois. É algo difícil de explicar racionalmente...”
    – Você já conhece Paris?
    – Não. E você?
    – Também não. Estou ansioso.
    – Onde você vai se hospedar?
    – Ainda não sei. Não fiz reserva.
    ­– Eu também não fiz. Você poderia me ajudar?
    – Claro! Encontraremos juntos a nossa hospedagem.
    – Sim! Juntos!
    “Não é coisa de minha cabeça, mas os olhos dela brilharam quando falei ‘juntos’. A presença dela é muito agradável. Literalmente, esta viagem vai passar voando...”
    “Poucos minutos se passaram: ela cochilou e pousou o rosto no meu ombro. Estou um pouco nervoso e indeciso. Que vontade de fazer cafuné. É melhor não incomodá-la. Ela é fofinha. Pensando bem: farei cafuné sim. Eu ficaria assim eternamente...”
    – Oi. Oi. Já estamos chegando.
    – Nem percebi. Acabei dormindo.
    “Quando o avião estava aterrissando, ela pegou na minha mão e apertou bem forte. Que ótima energia! Até parece que já senti este toque. Sei lá. Aparentemente conheço-a de outras vidas...”
    – Vamos. Vamos. Como está o teu francês?
    – Razoável. E o teu?
    – Abaixo do razoável.
    – Se o francês falhar, apelaremos à mímica.
    – Concordo plenamente contigo Mulher.
    “Ainda bem que, em pouco tempo, encontramos a hospedagem. Ficamos no mesmo quarto. Sugeri a ela que ficasse em outro quarto; ela discordou, logo não me opus à tal objeção...”
    – Querido, estou caindo de sono. Vou dormir. Tenha uma ótima noite.
    – Uma ótima noite para você também.
    “Apesar da longa viagem, não estou cansado. Na verdade estou, porém a presença dela mexeu comigo. Não consigo dormir. A noite avança. Já estou sonolento...”
    “Perfume agradabilíssimo ecoa pelo ar. Corpo quebra a madrugada. Surpresa estonteante acomete a mente masculina. Beijos suaves no pescoço. A excitação explode. A camisola despenca do corpo esbelto, revelando a lingerie azul. O coração dispara. Os lábios trocam saliva. As línguas quentes se entrecruzam. A respiração fica mais ofegante. A língua desliza ao longo do pescoço. Sutiã ao chão. Seios pontiagudos e deliciosos. Barriga apetitosa. Parte inferior da lingerie encharcada. Língua desce e sobe, circula levemente até explorar o ponto máximo do prazer. Gemidos ressoam no espaço. Os pontos máximos do prazer são experimentados no mesmo instante. Beijos e mais beijos. Corpo masculino em cima. Breve pausa. Olhares profundos. Entra 25%. Sai. Novamente 25%. Sai... Entra 50%. Sai. Novamente 50%. Sai... Entra 100%. Gemido agudo. Sai. Novamente 100% com toda força. Movimentos bem lentos. A velocidade aumenta paulatinamente. Explosão! Intensidade! Máxima velocidade! Movimentos circulares. Gritos de prazer. Olhos fechados. Palavras provocantes ao ouvido repetidas como um mantra. O calor aumenta. Corpos transpiram. Os suores se unem. A mente esquece a existência, o passado e o futuro. O que existe é somente o instante. Não há reflexão nem racionalidade. O instinto selvagem impera. Dois seres: o macho e a fêmea. Equilíbrio perfeito entre os princípios masculino e feminino. O corpo estremece de prazer. Variação nos movimentos e nas posições. Gotas de suor pingam no lençol azul. Quarto à meia-luz. Lâmpadas apagadas. Abajur aceso. Ar-condicionado ligado. Respiração profunda. Corações a mil. Doce frio. Pernas trêmulas. Gozo. Satisfação. Prazer...”   
    – Mulher. O que aconteceu?
    – Difícil explicar.
    – Estou em êxtase.
    – Nossa química é surreal.
    – Sem dúvida.
    – Temos muita sintonia.
    – É verdade.
    – Até parece que nos conhecemos há tempos.
    – Mulher, quando te vi ao meu lado no avião, tive a impressão que já te conhecia.
    – Eu também.
    – Talvez tenhamos nos conhecido em outras vidas.
    – É a única explicação plausível.
    – Será preciso nos apresentarmos?
    – É óbvio que não, afinal já nos conhecemos de outras vidas.
    – Minha Mulher, não percamos tempo. Beije-me! Beije-me!
    – Faço o mesmo pedido para você Meu Homem. Beije-me! Beije-me!

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