quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

“CELULAR, CELULAR MEU, EXISTE ALGUÉM MAIS BELO DO QUE EU?” POR TOSTA NETO


Nos tempos hodiernos, o cotidiano é dinamizado pelos smartphones, desde as coisas mais triviais até a resolução de questões de trabalho, portanto, para compreender o século XXI, a internet é um elemento imprescindível. Traçando um paralelo com a história, após a desagregação da União Soviética em 1991, a Globalização explodiu, fenômeno impulsionado pela propagação da internet que derrubou as barreiras do espaço e interligou cada vez mais as pessoas. Deve-se exaltar o recrudescimento do elo entre povos e países, porém há fatores deletérios que surgem no bojo da Globalização.
Na China, o advento de Deng Xiaoping no poder em 1978, integrou o país mais populoso da Terra ao mercado global, conjuntura econômica que resultara na queda do custo mundial da produção, viabilizando nas duas últimas décadas a disseminação dos celulares. A consequência foi a ampliação do alcance dos mais pobres aos bens industrializados. É inconteste que o dia a dia da sociedade foi literalmente impactado pela maior circulação de smartphones. Além da facilidade de comunicação e do acesso à informação, suscita-se um fator negativo: o uso desenfreado do celular. Algumas pessoas não conseguem viver longe do smartphone, encarando-o como uma extensão do próprio corpo. A distância gera ansiedade, pois o internauta supõe que receberá a melhor mensagem do mundo.
O internauta subjugado pelo vício virtual, sente a necessidade ininterrupta de conexão. Estar off-line é o fim dos tempos, é ficar apartado do mundo. Inegavelmente, as relações humanas estão a passar por um processo de artificialização, cujo contato virtual desguarneceu um pouco o tête-à-tête. O viciado em questão olvidou o plano real e vive homiziado na bolha virtual; este indivíduo habita numa “sociedade alternativa” desprovida de concretude. O mundo virtual irradia uma certa perfeição, marcada pela inexistência da infelicidade, onde o internauta posta fotos de momentos alegres e vitoriosos com legendas clichês que ilustram a ocasião. Até a Alice do País das Maravilhas ficaria com inveja da aura de perfeição que emana do mundo virtual.
Doravante, realizaremos uma analogia com o narcisismo. A priori, é mister falar um pouco sobre o Mito de Narciso. Na Mitologia Grega, Narciso era um belo jovem que despertava a paixão das ninfas, mas ele as desprezava. Certo dia, quando bebia água num lago, Narciso ficou encantado com o semblante projetado no espelho d´água; apaixonara-se pela própria imagem e ficara ali até morrer de inanição. Vale salientar, que o narcisismo é uma metáfora sobre a vaidade humana. Normalmente, pessoas vaidosas ficam horas a fio contemplando-se no espelho. Todavia, a vaidade não deve ser vista como uma característica desprezível; o problema é atingir o status do exagero.
O narcisismo foi potencializado pelas redes sociais. Internautas pontuais, logicamente aqueles que esqueceram o mundo real, efetuam postagens que detalham as suas rotinas. As fotos postadas seguem um padrão: efeitos de aplicativos, correções no photoshop (ou qualquer programa semelhante) e risos desprovidos de espontaneidade. Há a sensação que nas redes sociais todos são lindos e felizes; e a tal da selfie é a personificação do narcisismo. O culto ao ego é deveras nocivo à humanidade, drenando toda a energia da alteridade, questão apontada por Krishna no Bhagavad Gita. Enfim, o internauta narcisista deve falar diariamente para si: celular, celular meu, existe alguém mais belo do que eu?


(Tosta Neto, 02/01/2020)

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