segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

“O FUTEBOL E A TRADIÇÃO MAGIAR” POR GEISSON PEIXOTO


O esquecimento ou a indiferença é uma das piores formas de punição a qual pessoas, ideias ou fatos podem vir a sofrer e tende a ser resultado, sobretudo, de manipulações ou de causas naturais. O primeiro normalmente se dá por viés ideológico, ou seja, quando uma determinada visão de mundo de uma sociedade ou de segmentos dela tenta obscurecer de maneira subliminar personalidades históricas, pensamentos ou acontecimentos para que não voltem a inspirar pessoas em outro momento histórico. Também é chamado por muitos como “Guerra Cultural”. O segundo tipo ocorre seja por ignorância, no sentido básico do termo que é desconhecer, seja porque, para muitos, determinados ídolos, ideias ou fatos não mais importam, não estão “na moda” no debate público, nas discussões de bar. Evidentemente muito de injustiça pode ser praticada por meio de ambas às formas de invisibilização, ou mesmo pela mistura delas e de outras.
Um dos segmentos que mais sofrem com a segunda forma de invisibilização é o futebol. Muitas vezes por características da própria modalidade, sempre ávida por novidades, seja de novas estrelas, seja de grandes equipes, seja de novas emoções. Também é onde mais se renovam os seus aficionados, e em nossos tempos, poucos são os jovens que se preocupam com o passado, embora tenham muitas informações à disposição via celular e outras formas de tecnologia.
Se perguntarmos em um bate-papo de botequim o que é a Hungria, provavelmente muitos estranharão o próprio termo e especularão que se trata do nome exótico de uma mulher, ou seria de uma cidade asiática ou de algum clube de futebol do Oriente Médio. Não muitos saberão que se trata de um país europeu com imensa tradição no mais popular esporte do planeta.
A seleção magiar foi durante muito tempo uma das grandes potências do mundo do futebol até, mais ou menos, o final da década de 60 do século passado. Foi finalista da Copa do Mundo de 1938, na Itália, sendo derrotada pelos donos da casa na final que ficou conhecida pela famosa frase atribuída ao ditador fascista Benito Mussolini para os atletas italianos antes da decisão: ''Vitória ou Morte”. A Esquadra Azurra venceu por 4 x 2 em uma partida acirrada e sobreviveu, conquistando o bicampeonato do torneio (já havia vencido em 1934). O goleiro magiar Antal Szabó declararia depois: "Levei 4 gols, mas salvei a vida de 11 italianos''
O auge do futebol húngaro, contudo, foi com a formidável geração de Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Zoltan Czibor, Nandor Hidegkuti entre outros. Então sob o jugo soviético, praticava o esquema tático 4-2-4 e era no futebol o principal representante do estilo coletivista que representava a visão de mundo socialista contra o capitalismo. Realizou grandes feitos: ficou invicta entre 1950 e 1954 (36 jogos, 32 vitórias e 4 empates); em 1953 foi a primeira seleção não-britânica a vencer a Inglaterra, inventora do futebol, no mítico estádio de Wembley (6 x 3) e na revanche, em Budapeste, sonoros e inesquecíveis 7 x 1 (não somos os únicos a lembrarmos pesarosos desse placar amargo). Em 1952, na Olimpíada de Helsinque, na Finlândia, já levara a medalha de outro vencendo todas as partidas.
O palco da Copa do Mundo de 1954, na Suíça, estava armado para a consagração definitiva dos magiares. Todos os prognósticos indicavam que seria o auge daquela geração evidenciados por vitórias com placares acachapantes (9 x 0 na Coreia do Sul e 8 x 3 na Alemanha), terminando com a mais impressionante média de gols em um mundial (5,2 por partida), ou seja, 27 gols em cinco jogos. Venceu as poderosas seleções do Brasil, vice do torneio anterior, por 4 x 2 nas quartas de final, e o Uruguai, atual campeão, na semifinal, este último na prorrogação por 4 x 2 depois do 2 x 2 no tempo normal (Juan Holberg, do Uruguai, fez o gol de empate aos 41min do segundo tempo e chorou de emoção, contudo, não adiantou muito). Tudo estava pronto, o adversário era a mesma Alemanha que sofrera humilhante placar na primeira fase, todavia, a história seria diferente.
A decisão desse mundial merece um capítulo à parte. No primeiro encontro entre Alemanha e Hungria no mundial da Suíça os germânicos haviam escalado uma equipe reserva, pois sabiam que uma vitória na rodada seguinte contra a fraquíssima Turquia os classificariam (como ocorreu por 7 x 2). Os atletas alemães perceberam a tática húngara durante a partida e caçou o craque Ferenc Puskas, que não jogou nas rodadas posteriores e atuou no sacrifício na final. Na decisão, o cartão de visitas dos húngaros logo no início da partida: 2 x 0. Repetiram o que faziam em todos os jogos, pois os atletas da seleção da Hungria já começavam os confrontos aquecidos, diferentemente do que faziam as outras equipes na época, o que lhes davam uma vantagem no princípio dos jogos. A Alemanha, porém, liderada pelo craque Fritz Walter, virou o placar para 3 x 2 e deu origem ao chamado “Milagre de Berna”. A desacreditada seleção germânica conseguiu conquistar o seu primeiro mundial e levantar a autoestima do seu povo que sofria pela culpa e pela derrota durante a Segunda Grande Guerra. Apesar da grande campanha, uma das três melhores seleções da história dos mundiais não ficou com a taça. Essa geração se dispersaria depois que os húngaros tentaram se livrar do jugo soviético e do Pacto de Varsóvia em 1956, mas os tanques do Império Vermelho falaram mais alto. Foi a oportunidade em que vários jogadores, alguns em excursão pela Europa com o então poderoso Honved, base da seleção, conseguiram fugir e se exilarem. Muitos brilhariam depois em grandes clubes como Real Madrid e Barcelona.
Depois desse período a Hungria não conseguiu grandes feitos. Chegou a fazer dois bons mundiais como em 1962, quando foi eliminada pela Tchecoslováquia por 1 x 0 nas quartas de final, além de 1966, quando derrotou o Brasil por 3 x 1 na primeira fase e só foi retirada do mundial pela União Soviética pelo placar de 2 x 1 na mesma fase da Copa Anterior. Em ambos os mundiais, liderados por Flórián Albert, considerado o melhor jogador da Hungria após a geração de ouro de Ferenc Puskas e o último a ter grande renome internacional. É também o único húngaro a ser escolhido formalmente o melhor jogador da Europa, ao receber a Bola de Ouro da France Football em 1967. Ao lado de Kocsis, é também o único a ter sido artilheiro de uma Copa do Mundo, com seus quatro gols no mundial de 1962.
Além da já referida melhor média de gols de uma seleção em Copas do Mundo, a seleção magiar ainda carrega consigo duas marcas importantes no torneio: a maior goleada, 10 x 1 diante de El Salvador em 1982, e o segundo lugar, o já também citado placar de 9 x 0 na Coreia do Sul. Na mesma partida histórica contra a seleção da América Central, László Kiss destacou-se ao tornar-se o primeiro reserva a marcar três gols em um jogo de Copa. Ao todo, já participou de 9 mundiais. A Hungria ainda é a maior vencedora dos jogos olímpicos de futebol com três conquistas (1952, 1964 e 1968). Na última Eurocopa, na França (2016), resgatou um pouquinho do velho brilho e chegou às oitavas de final do torneio com direito a um empate em 3 x 3 na primeira fase diante da futura campeã, Portugal, de Cristiano Ronaldo, que marcou dois gols na partida. A eliminação veio diante dos favoritos belgas de Hazard e De Bruyne por humilhantes 4 x 0.
Resgatar em parte a memória da tradição húngara é prestar um serviço à própria história do futebol e uma maneira de apresentá-la em parte às futuras gerações. Antes de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, antes da atual seleção francesa multicultural, da vencedora equipe portuguesa ou da habilidosa geração belga, havia Puskas, Kocsis e Czibor, existia a Hungria que, com a sua arte de jogar, representou uma época e uma geração de futebolistas que também encantaram o mundo. Que façamos justiça a uma história que não devemos deixar invisibilizada sob pena de praticarmos mais uma das muitas injustiças que a vida e o esporte exercem. A final da Copa do Mundo de 1954 que o diga.


(Geisson Peixoto Araújo, 06/01/2020)                                                                      

Referências:

HILÁRIO, Franco júnior. A dança dos deuses: futebol, cultura e sociedade. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

CARVALHO, José Eduardo Carvalho de. 150 anos do futebol: Geopolítica. São Paulo; SESI-SP editora, 2012.

Especial Revista Placar: os 100 craques do século.  Editora Abril, 1999.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%B3ri%C3%A1n_Albert

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sele%C3%A7%C3%A3o_H%C3%BAngara_de_Futebol

https://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_do_Mundo_FIFA_de_1938

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