quinta-feira, 16 de abril de 2020

REFLEXÕES SOBRE A MORTE EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS (GEISSON PEIXOTO)

Qual o Sentido da vida e da Morte? - Renata Alencar - Medium

“Não há uma só noite, nem um só dia em que não se ouçam, misturados aos vagidos dos recém-nascidos, os gritos de dor em torno dos esquifes”. (Lucrécio)

Em tempos de coronavírus evidenciamos na mídia os preocupantes números de mortes produzidas por esse misterioso ser microscópico. Dados nacionais e internacionais de óbitos são constantemente atualizados e projeções pessimistas lançam possibilidades de perdas abundantes de vidas humanas. Reportagens fazem paralelos entre a atual situação mundial com outras tragédias de saúde pública pretéritas como a Peste Negra. A morte se projeta como tema inescapável, muito mais do que normalmente é.
Os momentos mais dramáticos e épicos da história dos homens se mostram quando a presença da morte se torna mais constante, massiva e temida, talvez por isso a humanidade tenha produzido ao longo da sua história um mundo simbólico cuja finalidade era tentar esquecê-la ou amenizá-la. As religiões, a filosofia, as artes e o entretenimento, entre outras funções, nada mais fazem do que isso. Mas nem sempre é possível se libertar completamente da necessidade de sua reflexão mais profunda.
Entre os grandes pensadores que trataram do tema da morte, certamente um dos mais fascinantes é o francês Michel de Montaigne em sua monumental obra Ensaios, uma das mais formidáveis produções que o gênio humano foi capaz de realizar. Em um dos seus ensaios de título “De como filosofar é aprender a morrer”, o escritor nos alerta sobre a inutilidade da preocupação com esse drama pessoal que em algum momento se avizinhará. Diz o mesmo que:

“Se a nossa morte é súbita e violenta, não temos tempo de receá-la; se não é, na medida em que a enfermidade nos domina, diminui naturalmente o nosso apego à vida. Custa-me muito mais aceitar a ideia de morrer quando gozo saúde do que quando estou de febre. Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las, a morte se me afigura menos terrível. Disso concluo que quanto mais me desprender da vida e me aproximar da morte, tanto mais facilmente me conformarei com a passagem de uma para outra.”

Reflexão que possui relações com a alcançada pelo filósofo Epicuro em um passado remoto, mais especificamente entre os anos 341 a 270 a. C., tempo em que viveu. Em seu texto “Carta sobre a Felicidade”, disse a seu discípulo Meneceu na oportunidade:

“O mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.”

A “existência” da morte pode nos parecer aterradora e de fato é, sobretudo quando ela atinge as pessoas que mais amamos. O mais abominável da sua natureza é o seu excesso de certeza, tanto no que se refere ao seu alcance universal a todos os seres vivos quanto ao fato de ser aquilo que existe de mais definitivo, determinado, inegociável. Em que pese essas características, o seu fenômeno paradoxalmente valoriza a vida, pois sem a morte estaríamos talvez fadados a viver um eterno futuro, pensando que teríamos um tempo infinito para alcançarmos o que almejamos, de amar a quem admiramos e de lutar pelo que acreditamos. Não saberíamos valorizar o presente, pois construiríamos em nós a sensação de que ele estaria infinitamente à nossa disposição, e se existe uma das certezas que a experiência humana nos traz é aquela que diz que os homens tendem a desvalorizar tudo aquilo que lhes são abundantes. Sabemos que temos um limite existencial e precisamos aproveitá-lo convenientemente, sob pena de torná-lo mais curto do que realmente foi porque o tempo, além de cronológico, são os das sensações, das experiências e das emoções. Não por acaso Montaigne nos diz que:

“A vida em si não é um bem nem um mal, torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis. [...] Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante.”

Não se está aqui a aprovar a aceitação da morte, muito pelo contrário. Ela deve ser refletida com equilíbrio e sensatez em todo o seu significado para que possamos, mais do que nunca, valorizar a sua antítese: a vida. Que essa chance única e intransferível não seja retirada precocemente seja por vírus, seja de fome, seja de violência ou por quaisquer meios não naturais. Dos números de óbitos que gritam na mídia neste tempo de crise tiremos a sabedoria de cuidar dos que ficam e de valorizar a existência que temos. Como diria Montaigne: “Prolonguemos os trabalhos da existência quanto pudermos, e que a morte nos encontre a plantar as nossas couves, mas indiferentes à sua chegada e mais ainda ante as nossas hortas inacabadas”.

(Geisson Peixoto, 16/04/2020)

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