terça-feira, 23 de junho de 2020

OS NOVOS “XINGAMENTOS” NO DEBATE POLÍTICO BRASILEIRO: A RETÓRICA DA IMPRECISÃO (GEISSON PEIXOTO)

Um debate político inesquecível - Raphael Evangelista - Medium

O ambiente legislativo é pródigo no uso de termos que representam categorias políticas, utilizadas como formas de separar os homens públicos em segmentos representativos da sociedade. Sempre foi assim e sempre será. Conservadores, socialistas, anarquistas, democratas, liberais, republicanos, parlamentaristas e tantos outros adjetivos saíram desse espaço mais restritivo do debate público (Câmara e Senado) ou de locais mais especializados (universidades, artigos de jornais e revistas) e invadiram territórios ainda mais democráticos como as praças públicas, jantares, festas de família e, principalmente, as redes sociais. Foi um avanço de fato, pois reflete a expansão do interesse da população pelas questões políticas do país e pela tentativa de compreensão dos perfis dos agentes públicos que debatem os temas nacionais.
O lado deletério dessa banalização de termos é a sua imprecisão conceitual e a sua aplicação como xingamentos eufemísticos, ou seja, como ofensas menos agressivas, mais cordatas, mais elegantes. É uma agressão verbal com palavras amenas, mais sutis. Em resumo: o desejo do locutor era mandar o interlocutor à m****, mandá-lo tomar banho ou outra coisa, ofender a sua mãe ou o seu pai, mas isso soaria “bárbaro” demais e denunciaria a sua falta de etiqueta pública, sem falar que chamar alguém de comunista, fascista, neoliberal ou nazista é mais chique! Poucos foram os estudantes universitários das áreas humanas que não carregaram consigo o sonho de um dia ofenderem alguém por esses nomes. Hoje todos se encontram plenamente saciados.
Não são apenas os homens e mulheres “comuns” que vêm usando descriteriosamente esses termos dos quais muito só ouviram falar “por cima” ou pela Wikipédia, mas também os políticos das diversas matizes, jornalistas, comentaristas e até ministros do Supremo! O grande gramático Evanildo Bechara aponta que “o problema daqui do Brasil é que os palavrões, de tanto uso, vão perdendo o aspecto de afrontamento” e ainda que “o meu medo como professor é que, amanhã, o indivíduo para xingar o outro, vai chamar de ‘deputado’, ‘senador’, aí sim passa a ser palavrão”¹. Talvez se o eminente membro da Academia Brasileira de Letras tivesse dito tais palavras neste corrente ano quando a coisa exacerbou de vez e não em 2016, muito provavelmente teria chegado à conclusão de que essas ofensas intelectualizadas são as diversas categorias políticas usadas no debate público. São os novos palavrões das redes sociais.
O debate sobre a banalização de categorias políticas e os seus usos como xingamentos remete evidentemente a fatores semânticos, ou seja, sobre o sentido que dou a determinadas palavras, aos seus significados ou a preconceitos sobre elas. Quando chamo alguém, por exemplo, de “esquerdista” ou “direitista”, essas expressões estão carregadas de sentidos positivos ou negativos que dependem da visão de mundo de quem enuncia e de quem recebe o enunciado, assim sendo, pode ter um sentido negativo ou positivo conforme o entendimento existencial de quem escuta e de quem fala. Obviamente se alguém embute em um adversário determinada categoria política, obviamente não enxerga nela grandes qualidades.
O debate acerca da banalização de categorias políticas remete de alguma maneira também à “Lei de Godwin”, ou seja, uma teoria criada pelo advogado e membro sênior de um instituto de pesquisa política libertário de Washington, que a utiliza para expressar a banalização analógica de qualquer fato político ao nazismo. Dito de outra forma, quando alguém associa pessoas públicas ou não, às ações delas ou às medidas tomadas por elas ao nazismo. Em uma discussão seria como apelar para o nazismo como efeito retórico, exagerado, normalmente irreal.
Se no debate público brasileiro a Lei de Godwin está sendo infringida ou não depende muito do senso de proporções de cada um, mas se ela fosse estendida às outras categorias políticas além do nazismo, certamente faltariam “cadeias” para tantas ilegalidades. Em um ambiente cada vez mais polarizado, o exagero retórico é a arma mais frequente nas acirradas discussões sobre os importantes temas nacionais. Na esgrima verbal, é o dedo no olho, é a trapaça que se usa contra o adversário para levar vantagem na peleja discursiva. Só o debate real, maduro e profundo poderá diminuir essas imprecisões que as redes sociais potencializam.
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Breve dicionário político do senso (in)comum das redes sociais

Antifas – Para os esquerdistas, bravos guerreiros representantes do povo em defesa da democracia brasileira; para os direitistas, vândalos e black-blocs que só querem brigas e quebrar tudo.

Comunistas – Para os direitistas em geral, qualquer um que seja de esquerda, para os bolsonaristas em particular, qualquer pessoa que critique o governo.

Conservadores – O povo evangélico, que acha imoral transar antes do casamento, fumar um baseado e ser gay. Para piorar tudo vota em Bolsonaro.

Direitistas – Para os esquerdistas, sinônimo de bolsonaristas.

Esquerdistas – Para os direitistas, sinônimo de petistas.

Fascistas – Qualquer pessoa que seja conservadora, favorável ao porte de armas e critique a imprensa. Defender pautas liberais não passa de disfarce para enganar trouxas.

Globalismo – A Organização Mundial da Saúde, as Nações Unidas, a China e os cubanos em associação com Thanos para dominar o mundo. Nada é aleatório, tudo tem um propósito.

Nazismo – Alguma coisa a ver com preconceito, mentiras repetidas muitas vezes, ditadura e um tal de Hitler. É o nome mais agressivo para ofender alguém e exagerar nas coisas quando se fala em política, por isso sempre está na moda.

Neoliberais – São os defensores da economia de mercado, mas podem chamá-los de capitalistas malvadões que desejam roubar todo o dinheiro do mundo e matar os pobres de fome.

Olavismo – Um monte de loucos conspiracionistas formados por um velho tabagista e de boca suja. É a Liga da Justiça contra os globalistas e comunistas.

(Geisson Peixoto, 23/06/2020)

Referências

1.https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/06/1780783-palavroes-e-xingamentos-se acumulam-em-disputas-entre-politicos.shtml

2.https://super.abril.com.br/ideias/quem-e-mike-godwin-e-o-que-e-a-lei-de-godwin/

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