quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O HEROÍSMO DO MARKETING PESSOAL: OS HERÓIS DAS REDES SOCIAIS (GEISSON PEIXOTO)

A história humana é marcada por uma longa trajetória de indivíduos que em ações heroicas entregaram as suas vidas, muitas vezes literalmente, em prol da proteção de povos, nações e ideais. As guerras eram o teatro dos horrores em que as suas atuações fizeram-nos ser notáveis. Homens como Alexandre, Júlio Cesar, Aníbal, Napoleão Bonaparte e outros escreveram as suas biografias associadas a vitórias épicas em campos de batalha. No passado os jovens almejavam ser gladiadores e vencerem batalhas épicas em uma gigantesca arena apinhada de gente. No período medieval tornar-se um cavalheiro era sinônimo de dignidade, valentia, maturidade e orgulho para toda a família, era um soldado pronto para guerrear. A honra e os mais sublimes valores estavam relacionados a componentes belicosos, ao campo de batalha.

Com o passar do tempo os significados de heroicidade e honradez foram ampliados e personagens religiosos, navegadores, agitadores políticos ou mesmo artistas passaram a carregar também essa aura guerreira, de abnegação. Eram tempos em que quase tudo era perigoso. O risco de perder literalmente a cabeça, ser queimado vivo ou mesmo ser esquartejado não era raro. Sem falar em prisões arbitrárias, degredos e outras espécies de punições draconianas.

Provavelmente foi no século XX em que houve o esgarçamento completo do conceito de heroísmo. Além dos tradicionais líderes que se destacaram em períodos de guerra, guerrilheiros, ativistas e militantes passaram a receber homenagens e honras de heróis. Muitas vezes justas, outras, nem tanto. As guerras metafóricas protagonizadas no campo esportivo também permitiram com que os atletas também abocanhassem um pedaço desse prestígio de idolatria dispensado a homens de relevantes feitos.

Conceitos de heroísmo à parte, é irrefutável que existiam fatos no mundo que exigiam ações corajosas, de renúncia e altivez de homens e mulheres. Estamos falando do expansionismo romano, da consolidação de religiões então marginalizadas, das Cruzadas, das ambições napoleônicas, das batalhas contra o Nazismo, o Fascismo e o Comunismo, da existência de impérios coloniais, da imposição do apartheid na África do Sul, da ausência de muitos direitos civis, da prática de guerras étnicas, entre outros males enfrentados pela humanidade aos longo da sua existência. Tudo era real, legítimo, verdadeiro, perigoso e cruel.

Toda essa longa trajetória nos traz ao século XXI, período de inquestionáveis avanços. Em que pese ainda a existência da pobreza em muitas partes do mundo, da persistência de guerras em muitos territórios do globo, da violência urbana, de problemas sociais diversos, ainda assim, é irrefutável que nunca a história humana viveu um período de tanta paz, prosperidade e tecnologia (evidentemente não levando em conta este momento específico de pandemia). Além dessa bonança, os avanços da medicina permitem que os seres humanos tenham um tempo médio de vida muito maior do que jamais tivera e qualidade de vida idem. Diante de tudo isso, chegamos à grande pergunta realizada por um personagem de nome desconhecido do escritor russo Fiódor Dostoiévski, no texto “O Paradoxalista”, que consta no livro “Contos Reunidos” do mesmo autor:

“A guerra eleva o espírito do povo e a consciência de sua própria dignidade. A guerra iguala a todos no momento da batalha e reconcilia senhor e escravo na mais sublime manifestação da dignidade humana: o sacrifício da vida pelo bem comum, por todos, pela pátria. Será que o senhor pensa que a massa, mesmo a massa mais ignorante de mujiques e mendigos não sente necessidade de uma manifestação ativa dos sentimentos elevados? Em tempos de paz, como a massa pode manifestar sua grandeza de alma e dignidade humana?”

Bem, o povo institivamente já sabe como manifestar o seu heroísmo, coragem e dignidade humana. Nada mais fazendo do que acordar cedo, pegar transportes cheios, trabalhar durante todo o dia, arriscar-se em cidades violentas, educar os filhos em situações adversas e, ainda assim, acordar no dia seguinte pronto para começar tudo novamente como a pedra de Sísifo que desce montanha abaixo e que deve ser rolada sempre cume acima.  A grande massa não possui tempo a perder em afetações heroicas ou simulações épicas. A vida em si já é uma espécie de campo de batalha simbólico em que sobreviver é necessário. Como disse o escritor João Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”. Em algumas condições de vida ainda mais.

Isso posto, existe uma parte da população tupiniquim, e por que não dizer mesmo internacional, de classe média, alta ou da intelligentsia que, imbuídos de espírito megalomaníaco e de superioridade, entregam para si a responsabilidade de mudar o mundo. Abnegados e ansiosos em expressar a sua coragem e heroicidade, empunhando as suas armas que são as redes sociais, esses “heróis” iniciam a sua cruzada contra todos aqueles que são contrários às suas visões de mundo realizando linchamento de reputações, criando fake news, realizando boicotes e promovendo manifestações pela rede. Os seus grandes mestres são os chamados youtubers e os digitais influencers. Se até os BBBs já foram chamados de heróis, por que eles não seriam?

De posse de uma mente binária, esses “heróis” transformam alguém em uma espécie de diabo encarnado, um Thanos que, em sua historinha particular, deve ser combatido com falácias, histrionismo e vitimismo. Os sentinelas do bom-mocismo e do politicamente correto não descansam e estão em eterno patrulhamento, sempre dispostos a fazer justiça, ou seja, cancelar quem pensa diferente ou quem não falar as palavras que devem ser ditas conforme essa patota. Esse heroísmo está cercado de um mercado de vaidades em que, aquele que lacra ou mita mais ganha pontos perante os acionistas da afetação. O bom de tudo isso é sentir-se um sujeito melhor, que todos os aplaudam e que os seus pares os elogiem e os vejam com bons olhos. Quem não quer ser benquisto por colegas, amigos e parentes? Sem falar que abre portas, criam oportunidades e potencializa as redes pessoais.

Nessa matrix mental, para ser realmente um grande herói, faz-se necessário enxergar perigo em todos os lugares. Tudo deve ser visto como ameaça à liberdade, tudo é preconceito, discriminação e faz parte de um plano de homens ruins, verdadeiros vilões que planejam dominar a sociedade e impor o reino do mal. Se alguém não for capaz de simular todas essas adversidades, como será capaz de demonstrar todos os seus sentimentos elevados, a sua grandeza de alma e dignidade humana? Como será capaz de demonstrar que é um sujeito bom? De que vale ser legal e altruísta se ninguém sabe ou nota? Como conseguirá ser herói nestes tempos de paz? É fundamental criar oportunidades de demonstrar os seus bons sentimentos constantemente para que o mundo saiba que pode contar com ele. Não é possível ser um herói se a todo instante não houver um inimigo a se enfrentar e isso seria reconhecer a insignificância da vida medíocre que se vive. Na “sociedade do espetáculo”, expressão do escritor Mario Vargas Llosa, não ter um Coringa para enfrentar é estar fora de moda e ser julgado como “alienado”.

E os inimigos verdadeiros? E os estados nacionais, as instituições e os líderes que realmente promovem opressões? E as nações homofóbicas, sexistas e genocidas? Nada disso será observado se os tais “inimigos”, países, instituições ou líderes estiverem dentro do guarda-chuva ideológico dos heróis das redes sociais. Duplo padrão costuma ser a regra. Em uma mente binária, um lado carrega todas as virtudes, e o outro, todos os defeitos. Sem falar que certas defesas não dão likes e podem desagradar alguns dos seus colegas da Liga da Justiça.

Embora essas ações “heroicas” de redes sociais sirvam como forma de demonstração de uma espécie de empatia por certas causas e grupos, no entanto, gestos exagerados minam parte da credibilidade daquilo que se almeja dizer ou defender. Ao criar paranoias e histerismos por causas justas, legítimas, depõe-se contra essas próprias causas, pois, além de desgastarem os temas indevidamente, criam a cultura de que tudo que se fala é exagero, hiperbólico, histriônico ou, na expressão corrente das redes sociais, mimimi. Muitos dos assuntos debatidos nas redes e pelo politicamente correto são problemas reais, importantes e que refletem as mazelas da nossa sociedade, todavia, devem ser tratados com equilíbrio, inteligência e de maneira enfática e firme quando necessário. É fundamental refletir sobre as causas profundas desses problemas e não se ater a sensos comuns, superficialidades e respostas prontas. A história humana está cheia de exemplos de boas causas que serviram como justificativas para a violência, a perseguição, a falta de liberdade e oportunismo.

Talvez seja demais pedir serenidade e honestidade intelectual ao debater temas sensíveis à convivência humana em um ambiente tão tóxico e barulhento quanto as redes sociais. Se tal pedido parece ser um tanto inviável para o padrão médio dos usuários de internet, poderia ser almejado pelo menos pela chamada “classe mais esclarecida” do país. Mas enquanto não se encontra a medida correta de discutir questões pertinentes ao nosso país e ao mundo, os “heróis” do marketing pessoal continuarão em evidência. Serão os dom quixotes lutando contra os moinhos de vento.

(Geisson Peixoto Araújo, 08/10/2020)

 

2 comentários:

  1. Belo post meu caro. Muitas pessoas se tornam especialistas em diversos assuntos, e sem responsabilidade alguma de dizer a verdade ou transmitir legitimidade. O interesse é apenas vencer suas épicas batalhas virtuais, blindados por uma terra sei lei.

    Moysés Oliveira

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    1. Prezado Moysés, grato pelo comentário! O autor foi muito feliz nesta produção textual. De fato as redes sociais se transformaram no ambiente de "heróis" e "salvadores da pátria".

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