domingo, 28 de fevereiro de 2021

O TRIBUNAL DAS REDES SOCIAIS (TOSTA NETO)

No clássico da Filosofia Política, Do Espírito das Leis, Montesquieu teorizou e sacramentou a divisão do poder em três instâncias, cujos poderes são harmônicos, equânimes e independentes entre si. Um poder fiscaliza o outro para que não exista abuso de poder. Notadamente, o tripé apontado pelo filósofo iluminista é imprescindível no Estado Democrático de Direito. O espírito republicano se vivifica na separação dos poderes e no respeito à coisa pública. É válido delinear que a principal função do Poder Judiciário é julgar se as leis estão sendo aplicadas de forma correta, não obstante, em tempos de redes sociais, percebe-se um fenômeno recorrente na contemporaneidade.

No século XXI, a explosão das redes sociais concedera visibilidade para qualquer reles mortal, logo, o internauta é livre para expressar suas opiniões sobre as mais diversas temáticas. No turbilhão caótico de postagens, uma espécie de Tribunal das Redes Sociais “corporifica” uma aparente existência. Tal tribunal está a patrulhar determinadas opiniões que contrariam o seu escopo ideológico. Majoritariamente, o Tribunal das Redes Sociais é regido pela cartilha do politicamente correto, portanto, as publicações devem seguir os seus ditames. Uma afirmação dissonante e contundente é examinada pelos juízes das redes; caso o conteúdo não esteja afinado ao diapasão do politicamente correto, o autor é condenado à morte virtual. O Tribunal das Redes Sociais é inclemente e não concede o “direito de defesa ao réu”, porquanto o julgamento é instantâneo e passional, inexistindo uma análise imparcial e atenta aos “autos do processo”.

Prezado Leitor, voltemos ao Estado Democrático de Direito, um dos pilares do Ocidente. O Estado supracitado é legitimado pela constituição e pelo contrato social, portanto, nesta perspectiva, é condição sine qua non, a proeminência da diversidade de pensamento, todavia, tal princípio não ecoa plenamente no âmbito cibernético. Se o internauta violar uma mísera vírgula da cartilha do politicamente correto, suscitam-se uma devassa nas postagens pregressas e um fulminante cancelamento; este rebelde é transformado em pária, cuja existência virtual é enveredada ao ostracismo pelo Tribunal das Redes Sociais. Deve-se exaltar a grandiosidade da internet e a consequente revolução no acesso à informação, fatores que viabilizaram o debate de ideias. O unilateralismo ideológico não é salutar para uma nação, muito menos para o seu povo. Reafirmemos o quão a pluralidade de ideias é significativa no desenvolvimento do próprio pensamento.

Sinceramente, sejamos realistas: no geral, a humanidade está agrilhoada ao “mais do mesmo”. Quando um indivíduo sai da linha é tratado com desconfiança, haja vista o prisioneiro que se libertou no Mito da Caverna de Platão. Todo sinal de autenticidade é tachado como loucura pelo status quo. O ser humano é um ser social, por conseguinte, é persuadido a seguir o movimento de rebanho (a modinha do momento). Exemplifiquemos: escutar o que a maioria escuta, vestir o que a maioria veste, postar o que a maioria posta. Notoriamente, as redes sociais explicitam postagens que seguem um determinado padrão: fotos editadas com frases de efeito (se forem antigas, esbanjam a famosa #TBT), compartilhamento de memes, etc. Embora, visualizamos inúmeras postagens que trazem um conteúdo informativo e universal; é óbvio que qualquer aspecto da vida tem pontos positivos e negativos, não seria diferente com as redes sociais.

Ademais, reflitamos sobre o automarketing promovido no ciberespaço. É categórico o anseio do internauta em construir um arquétipo artificialmente positivo, espelhando a imagem heroica de defensor dos animais, das árvores e de todos os oprimidos do Sistema Solar. Em contrapartida, se o internauta “profanar” o código de regras, será visto pelos justiceiros virtuais (não são o Justiceiro da Marvel) como um vilão do naipe de Thanos. As redes sociais são um ambiente profícuo ao narcisismo; é de bom grado, colocar-se como herói e juiz supremo perante aqueles que postam “insanidades” e antagonizam o paradigma do politicamente correto. Outrora, o narcisismo era um contato íntimo entre o eu e o espelho, todavia, no século XXI, houve uma migração para a tela do celular. Enfim, o mundo se transformou rapidamente com a popularização da internet, permitindo-se testemunhar o advento de tendências sem precedentes, entre as quais, o Tribunal das Redes Sociais. Nobre Internauta, tenha cuidado com vossas postagens, senão, um deslize trará para ti a fúria dos justiceiros virtuais.

(Tosta Neto, 28/02/2021)

 

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