segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Candidato opositor é eleito presidente num país em crise econômica 

]
De O GLOBO  
por 

BUENOS AIRES - Depois de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno da eleição presidencial argentina, em 25 de outubro passado, o candidato da aliança opositora Mudemos, o prefeito portenho Mauricio Macri, protagonizou uma reviravolta na política argentina e se elegeu como sucessor da presidente Cristina Kirchner. Com 99,17% das mesas de votação apuradas, Macri tinha 51,40% dos votos, superando seu adversário, o candidato do kirchnerismo, Daniel Scioli, que alcançou 48,60%.

Por volta das 21h30m (hora local), o candidato do kirchnerismo, de 58 anos, atual governador da província de Buenos Aires, cumprimentou o oponente:
— Foi eleito um novo presidente, o engenheiro Mauricio Macri, com quem acabo de falar por telefone e parabenizar. Sou democrata e respeito a vontade popular. Pedimos que Deus o ilumine para melhorar o que o país avançou.
O clima em Buenos Aires e outras cidades era de euforia e seguidores de Macri celebravam nas ruas.
— Obrigado por terem acreditado que, juntos, podemos construir a Argentina que sonhamos. Estou aqui porque vocês decidiram — discursou o presidente eleito. — É uma mudança maravilhosa, que deve nos levar ao futuro e às oportunidades que precisamos para crescer.

Macri vai encarar problemas delicados, como irregularidades e escassez de reservas no Banco Central; recessão; aumento da pobreza e desemprego; necessidade de normalizar o mercado cambial (sob intervenção do governo desde 2011); isolamento dos mercados internacionais e falta de um acordo com os chamados fundos abutres, que estão litigando contra a Argentina em tribunais americanos e, assim, impedindo que o país possa sair da situação de calote de sua dívida pública.
— Vocês hoje fizeram possível o impossível, o que ninguém acreditava, com seu voto — agradeceu Macri à multidão que o prestigiava, e aproveitando para mandar um recado aos perdedores. — Esta vitória não pode se deter em revanches e ajustes de contas.
O presidente eleito iniciou sua carreira política na virada do século, após presidir o Boca Juniors, time mais popular do país, e ter comandado empresas do império fundado pelo pai, o magnata Franco Macri.
A grande expectativa da oposição era superar os votos conquistados por Cristina, quando foi reeleita em 2011. Na época, a presidente alcançou 54,11%, superando amplamente os 22% obtidos pelo segundo colocado, o socialista Hermes Binner, e se tornando a terceira chefe de Estado mais votada da História argentina. O primeiro lugar é ocupado pelo general Juan Domingo Perón, que nas presidenciais de 1951 obteve 63,4%. Hipólito Yrigoyen, líder histórico da União Cívica Radical (UCR), eleito em 1928, com 61,66%, ocupa o segundo lugar.

CRISTINA TIROU FÔLEGO DE SCIOLI

No primeiro turno, em outubro, Macri ficou apenas três pontos percentuais abaixo de Scioli, desempenho que surpreendeu analistas e empresas de consultoria, que previram uma vantagem de até dez pontos percentuais para o kirchnerista. A aliança opositora se tornou um rival competitivo — até então se dizia que Macri não tinha chances de derrotar Scioli num segundo turno. E venceu disputas-chave, como o governo da província de Buenos Aires e mais de 70 prefeituras.
Após ser eleito prefeito portenho em 2007, e reeleito em 2011, com mais de 60% dos votos, Macri se tornou o grande rival do kirchnerismo nas urnas graças à aliança de seu partido, o PRO, com a tradicional UCR. O entendimento, que nasceu no começo deste ano e provocou muito debate interno na UCR, deu a Macri a estrutura nacional que o PRO não tinha e que sempre representou o principal obstáculo para sua candidatura presidencial.
Para Macri, de perfil empresarial, a vitória representa o desafio de governar um país com parte do peronismo na oposição, um fantasma que, segundo seus colaboradores, não o assusta. Outros ex-presidentes que não eram peronistas não conseguiram completar os mandatos, como Raúl Alfonsín (1983-1989) e Fernando de la Rúa (1999-2001).

— Para quem esteve 14 dias sequestrado e superou essa situação, não existe o impossível — comentou um assessor.
Em 1991, a família Macri pagou US$ 6 milhões pelo resgate do então empresário, que demorou algum tempo em se recuperar. O candidato não fala muito sobre o episódio, mas quem o conhece bem garante que foi traumático.
Scioli, que decidiu fazer política na década de 90 com o respaldo do ex-presidente Carlos Menem (1989-1999), também teve de superar circunstâncias difíceis, como a perda de um braço na década de 80, quando era campeão de motonáutica. Após ter perdido fôlego na segunda etapa da campanha, segundo analistas, pela alta rejeição ao governo kirchnerista, o candidato apostou numa campanha do medo para tentar reverter a vantagem de Macri, sem sucesso.

0 comentários:

CURTA!