sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

"A COPA DO NORDESTE E O FUTURO DO FUTEBOL DA REGIÃO" POR GEISSON PEIXOTO

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A Copa do Nordeste já há alguns anos se tornou, para muitos, o torneio mais interessante do primeiro semestre no país. As grandes equipes da região se enfrentam em busca de um título fora dos seus estados e protagonizam clássicos interestaduais cheios de rivalidade como Bahia x Sport, Ceará x Vitória ou Fortaleza x Santa Cruz. Finais memoráveis como Bahia 3 x 1 Sport (2001), Ceará 1 x 1 Sport (2014), Campinense 2 x 0 Asa (2013) e América-RN 3 x 1 Vitória (1998) ainda estão muito bem guardadas na memória afetiva de muitos torcedores. A Copa do Nordeste foi o único regional que realmente caiu nas graças do público.
Com cotas em torno de R$ 34,3 milhões a serem divididas entre os seus participantes, a Copa do Nordeste substituiu os falidos estaduais como alternativa orçamentária mais interessante, um avanço do nível de competividade dos clubes da região e um estágio de preparação mais avançada para as competições vindouras como o Campeonato Brasileiro. Ao invés de enfrentar muitos times semiamadores do interior dos seus respectivos estados, quando eram enganados esportivamente com vitórias acachapantes contra equipes medíocres, as maiores agremiações desta parte do país duelam entre si aproximando-se do nível de competividade que terão em disputas mais acirradas. O fortalecimento do regional representa uma tendência de se enxergar os estaduais como torneios de pré-temporada, onde serão utilizadas equipes de aspirantes, times alternativos ou os titulares apenas pontualmente. O Athletico-PR é a equipe pioneira nessa metodologia, seguida também por Bahia e Vitória, além do poderoso Flamengo.
Volta e meia pipocam mundo afora, principalmente na Europa, propostas de criação de superligas, ou seja, de campeonatos em que apenas os gigantes dos diversos países do continente se fariam presentes e em que os certames nacionais funcionariam como uma espécie de torneio de acesso a essas competições. Não seria uma copa europeia nos moldes da atual Liga dos Campeões, mas uma disputa de pontos corridos. Nos Países Baixos especulam a formação de uma liga que uniria as principais equipes da Holanda e da Bélgica. Ideias como essas já foram pensadas no Reino Unido. Tais propostas poderiam servir como influência para a consolidação da Copa do Nordeste como uma liga de verdade, mais forte, merecedora de mais datas de jogos, dinheiro e prioridade dos clubes locais. Evidentemente não seria possível uma competição de pontos corridos por falta de espaço no calendário e que também invadiria o Campeonato Brasileiro, como já faz hoje, diminuindo assim o seu interesse, todavia, o número de jogos dos estaduais poderia ser ainda mais diminuído.
É inegável que várias equipes da região vêm passando por um processo de reestruturação com investimentos em estrutura, profissionalismo e trabalhos de longo prazo. Em que pese às dificuldades financeiras de equipes tradicionais como Sport Recife e Vitória, clubes como o Bahia, Fortaleza, Ceará, CSA e Confiança estão mudando aos poucos de patamar no cenário nacional, embora ainda longe da atenção da grande mídia. A construção da Copa do Nordeste em um torneio realmente forte serviria para que, além de fortalecer os clubes locais, fomentassem o combate por reservas de mercado, tendo em vista que o Nordeste ainda sofre forte influência de equipes do eixo Rio-São Paulo, que se reflete pela torcida dos nordestinos por instituições esportivas dessas regiões ou mesmo de aficionados “anfíbios”, ou seja, que torcem para dois ou mais clubes, normalmente um do estado em que residem e outro(s) do sudeste.
É preciso se fazer justiça de que essa percepção de que o “Nordestão” poderia ser a válvula de escape para a construção de um futebol local mais poderoso foi idealizada por Paulo Carneiro, antigo e atual presidente do Esporte Clube Vitória, ainda nos anos 90. Levantando essa bandeira quase que isoladamente, o dirigente do maior campeão do torneio (quatro títulos) nada pôde fazer ao ver as suas ideias sucumbirem diante da covardia dos demais dirigentes de clubes, que preferiram se render à época à força das federações de futebol dos estados. A disputa ao longo dos anos foi sofrendo ataques por meio da falta de interesse das emissoras de televisão em realizarem suas transmissões, baixas cotas financeiras, descaso dos clubes e boicotes, como ocorreu com o Sport Recife, que se negou a participar do torneio por dois anos. Ainda assim, a competição sobreviveu e continua firme e forte. Hoje conta com quatro clubes da série A (Bahia, Ceará, Fortaleza e Sport), cinco da série B (CSA, Confiança, CRB, Náutico e Vitória) e outras agremiações tradicionais como o Santa Cruz, América de Natal e o ABC. A evolução dessa copa é visível e ainda poderá ser mais acentuada conforme o nível de prioridade que receba por parte dos clubes e organizadores.
Torna-se essencial que o futebol do Nordeste possa cada dia mais se organizar visando estar minimamente competitivo em cenário nacional, principalmente nestes tempos em que algumas equipes como Flamengo e Palmeiras ensaiam uma hegemonia do futebol brasileiro irrigadas com muito dinheiro, estrutura e mídia. Período em que se consolidou a implosão do chamado “Clube dos 13”, quando as negociações por cotas de televisão eram realizadas em grupos, mas que hoje, com o fim da entidade, favoreceram equipes do sudeste como, além das citadas, também a Corinthians e São Paulo, detentoras de torcidas nacionais e que recebem grande acompanhamento da imprensa do país, que agora negociam bilateralmente com as empresas de mídia, recebendo muito mais dinheiro que a maioria dos outros clubes do país.  Uma Copa do Nordeste forte pode servir como um bastião que venha a contribuir para o fortalecimento do futebol local, combatendo essa tendência de forte monopólio financeiro de um restrito grupo de equipes.

(Geisson Peixoto, 28/02/2020)

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