sábado, 28 de março de 2020

O BIQUÍNI PRETO (TOSTA NETO)


Afonso e família moravam numa pacata vila praieira. O fluxo de pessoas era deveras reduzido ao longo do ano, aumentando um pouco no verão. A vida do garoto de 18 anos era monótona: escola, casa, praia e casa. O vazio da existência afligia o âmago do pobre jovem. O verão se aproximava e a possibilidade de boas-novas surgia no horizonte.
Afonso “matava o tempo” lendo HQs da Marvel e assistia séries da Netflix (Stranger Things e The Witcher eram as suas favoritas). Também gostava de tocar músicas de Legião Urbana no violão. O jovem estava na 3ª série do Ensino Médio e já projetava o ingresso na faculdade.
O quarto de Afonso, apontado para o leste, localizava-se no 1º andar. Ele abria a janela e perdia horas a admirar a Lua. Misteriosamente, ele sentia uma ligação afetiva pelo satélite da Terra. Em noites de Lua Cheia, a euforia ficava “a flor da pele” e tinha mais disposição para fazer as coisas.
O Sol estava cada vez mais próximo dos trópicos. A primavera se esvaia. O verão nascia com todo fulgor. A brisa marinha adentrava o quatro de Afonso, enquanto o garoto se deliciava na leitura da Saga do Infinito. Ultimamente, Thanos era quase uma figura onipresente na mente do jovem; certa noite, até sonhara com o Titã Louco.
O número de visitantes foi elevado na singela vila. Na vizinhança de Afonso, uma casa foi alugada. Certo detalhe “roubou” a atenção do garoto de “mente fértil”: um biquíni preto no varal da residência recém-alugada. Ele começou a especular: “será que a dona do biquíni preto é bonita? Será que ela tem namorado. Talvez seja uma mulher casada. Eu já gosto de ficar imaginando este tipo de coisa.” O garoto pegou no sono pensando no bendito biquíni preto.
O dia nasceu com muita luz. O Sol imperava no dossel. Era uma manhã de domingo típica de verão. Afonso acordou com toda disposição; resolveu que naquela manhã iria banhar-se nas águas de Iemanjá:
– Filho, você acordou bem-disposto.
– Sim Mãezinha. Hoje estou com 110% de energia!
A casa de Afonso situava-se a poucos metros da praia. O garoto tomou um café reforçado, passou protetor solar e rumou ao reino de Poseidon. Sentou na areia e contemplou a imensidão do mar. Repentinamente, uma imagem “quebrou” o seu estado de reflexão. Uma garota emergiu das águas. O olhar de Afonso foi capturado. A beldade saiu da praia e tomou o rumo de casa; passou ao lado de Afonso e olhou discretamente. O coração do garoto acelerou: “eis a dona do biquíni preto. Ela é linda e tem um corpo maravilhoso. Que mulher atraente!”
Afonso mergulhou. Sentiu a vibração marinha, porém não conseguia tirar a garota do biquíni preto da cabeça: “ela é deslumbrante! Que corpão! Uma verdadeira sereia!” Perto do meio-dia, voltou para casa. Subsequente ao almoço, durante a sesta, pensou incessantemente na dona do biquíni preto.
No fim da tarde, Afonso é acordado pela mãe:
– Filho, você dormiu a tarde toda.
– É verdade Mãe. Hoje, eu nadei bastante. Estava um pouco cansado.
– Daqui a pouquinho, vá comprar o pão.
­– Irei sim Mãezinha.
No caminho até a padaria, Afonso foi surpreendido pela aparição da dona do biquíni preto:
– Olá. Com licença. Onde fica a farmácia mais próxima?
– Olá. Estou indo para a padaria. Na volta, te levo na farmácia.
– Está bem. Então, posso te acompanhar?
– Claro!
– Você mora aqui na vila?
– Sim. E você?
– Moro no interior. Perdoe-me! Nem me apresentei para você. Sou a Luna.
– Prazer! Afonso – ele pegou na mão dela e deu um afável beijo no rosto.
– Enfim. Vamos fazer nossas comprinhas.
– Agora mesmo. Serei o teu guia. A vila é muito grande. Comigo, você não irá se perder – risos.
– Com certeza!
No trajeto, Afonso comentou: “ela é muito educada e tem uma ótima energia. O perfume dela é agradabilíssimo. Estou nervoso por dentro. Acho que disfarcei bem.”
Após as comprinhas:
– Luna, te deixarei em casa.
– Grata! Você é um cavalheiro.
– Por nada! Fico feliz com tuas palavras.
– Fui apenas sincera.
– Ah! Você tem WhatsApp?
– Tenho sim. Anote.
– Mais tarde, te envio um “oi”.
– Combinado.
– Chegamos. Até mais.
– Até. Grata pela companhia.
– Foi um prazer te acompanhar.
Afonso estava radiante. O coração pululava de alegria. Inesperadamente, ele conheceu a dona do biquíni preto. O encantamento era visível no semblante:
– Mãezinha, aqui o pão – cantarolava Eduardo e Mônica.
– Você está muito alegre.
– Com certeza Mãezinha! São as “coisas feitas pelo coração”.
– Esses jovens se apaixonam facilmente.
O Sol partiu para o Japão. O firmamento estava desprovido de nuvens, possibilitando a visualização da constelação de Virgem. Afonso exalava ansiedade para enviar uma mensagem a Luna; tomou café e correu para o quarto. Ele viu que ela se encontrava on-line. Sem delongas:
# Olá Luna.
# Olá Afonso. Pensei que tinha esquecido de mim.
# De jeito nenhum.
# Certo.
# A nossa conversa foi muito agradável. Até pareceu que eu já te conhecia.
# Também tive essa sensação.
# Você é uma mulher cativante.
# Obrigada! (Emojis de carinha vermelha)
# Posso te falar algo?
# Sim.
# Não parei de pensar em você. (Emojis de carinha envergonhada)
# Eu também não.
# É muita sintonia entre nós dois.
# Concordo plenamente contigo Meu Bem!
# Você é um Amor. Quando te vi pela primeira vez fiquei encantado.
# Sério?
# Sério!
# Fico feliz! (Emojis de coração)
A conversa avançou até a madrugada...
Após a sesta:
# Luna, você estará ocupada nesta noite?
# Não.
# Vamos sair para tomar um milk-shake?
# Vamos sim. Eu adoro milk-shake. Qual horário?
# Às 7h30.
# Combinado. Até mais.
# Até mais.
# Beijinhos doces.
# Beijinhos carinhosos.
Céu límpido. Temperatura amena. Ondas calmas...
– Afonso, você foi pontual.
– Claro! O momento é especial. Pontualidade britânica. Vamos tomar o milk-shake, depois passamos na praia para observar a Lua e as estrelas.
– Combinado.
A brisa marinha incide no casal de “amigos”. Passos vacilantes. Um silêncio misterioso. Praia deserta. A luz lunar revelou o nervosismo nas faces. O jovem balbucia: “estou nervoso. Meu coração vai sair pela bola.” Luna sentou na areia; Afonso também. Ele segurou levemente a mão dela. Luna pousa o rosto no ombro de Afonso. Os dois sentiram uma profunda sensação de paz.
Beijo suave e longo nos lábios femininos. A suavidade se dissipa. Línguas entrecruzadas. Respiração ofegante. Corpos trêmulos de desejo. Peças de roupa espalhadas na areia. Lábios exploram o corpo feminino. Línguas coincidem no excitante ato. Partes íntimas intumescidas. Ato máximo. Instinto puro. Racionalidade zero. Apogeu dos princípios masculino e feminino. Gemidos graves e agudos. A Lua Cheia ilumina o enlace carnal. A posição mais animalesca reina. O gemido agudo fica mais forte e intenso. Suor percorre a face. Movimentos mais bruscos e rápidos. A energia interior explode. Coincidência nos gozos. Uma sensação relaxante apodera-se dos corpos. Afonso olha para o lado oposto de Luna. O pormenor na areia chamou a sua atenção: o biquíni preto.

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