domingo, 11 de outubro de 2020

AMARGOSA: 13 OU 65? (TOSTA NETO)

Eis mais uma corrida eleitoral. Dezenas de candidatos se apresentam como vindouros representantes do povo. As experiências de outrora e a previsibilidade estratégica apontam aquela velha cantilena do pleito: promessas utópicas, discurso raso e ensaiado, jingles chatos e repetitivos com letras quiméricas e “santinhos” que esbanjam risos artificiais. Esclareço ao leitor que o objeto deste artigo será a disputa no executivo. No título fiz questão de delinear as siglas partidárias, evitando incidir em personalismo, elemento muito nocivo na política. Contudo, é válido enfatizar que os partidos no Brasil estão em frangalhos, solapados por escândalos de corrupção, descrença do eleitorado e recrudescimento da figura do líder político.

Júlio Pinheiro (PT), naturalmente, concorrerá à reeleição. Karina Silva (PCdoB) tentará retornar à cadeira da prefeitura. Eu não emitirei juízo de valor sobre os candidatos, porquanto são meus conterrâneos e contemporâneos, logo não tenho a devida distância espacial e temporal para efetuar uma análise mais fria e meticulosa. De pureza d’alma, desejo aos candidatos uma campanha leal e propositiva. Explicitamente, as eleições no município mexem com as emoções do povo, por causa da proximidade física dos candidatos. País e estado são tipos conceituais deveras abstratos, diferentemente da cidade, pois habitamos na mesma. Não moramos no Brasil e na Bahia, outrossim, moramos em Amargosa. É compreensível o fervor e a euforia suscitados no eleitor na campanha municipal.

Uma vez mais, Amargosa testemunhará a contenda de candidatos vinculados à esquerda. Há tempos, a política na nossa amarga cidade está polarizada entre dois grupos: PT e não-PT. Ampliemos o foco e analisemos a conjuntura política de forma holística. No desenrolar da história amargosense, sobretudo nas duas últimas décadas, grupos tradicionais se alternaram no poder. A cada eleição, o tabuleiro político é alterado, os líderes se reagrupam, e o opositor do ontem transmuta-se no parceiro do hoje. Sem delongas, um candidato só terá chances de vitória se conseguir estabelecer alianças com os grupos supracitados; logicamente, Karina e Júlio estão imersos nesta amálgama de poder. Presencia-se uma bolha oligárquica que está longe de ser estourada

Não obstante, seria positivo à política local o advento da 3ª via. Não podemos reduzir tudo a uma concepção binária, embora reconhecemos o peso do dualismo judaico-cristão e a força do Materialismo Histórico no Ocidente, por conseguinte, fomos condicionados a pensar consoante o ângulo dicotômico: Deus x diabo, bem x mal, burguesia x proletariado, patrão x empregado, direita x esquerda etc. Os fatos nos sinalizam que quando surge um nome na condição de 3ª via, acaba sendo vaporizado ou colocado numa posição secundária pelas forças circunstanciais advindas da “matrix” oligárquica. O debate necessita ser amplificado para não se restringir à ordem bipolar. Citemos um fenômeno expressivo: alguns eleitores conservadores estão desnorteados perante o quadro limitado aos partidos de esquerda. 

Voltemos à disputa em questão. O candidato ao executivo que concorre à reeleição, na maioria esmagadora das vezes, angaria o triunfo. A candidata do PCdoB terá dificuldades exacerbadas para impedir a reeleição da candidatura petista. Quiçá o autor que vos escreve seja incompreendido por alguns correligionários, todavia a análise em si intenta tão somente reverberar no tocante a conjuntura política. Ora Ilustre Leitor, é normal que o eleitorado fique “à flor da pele”. Por mais que tenhamos a consciência que devemos escolher os candidatos que tenham as propostas mais contundentes e exequíveis, às vezes, somos persuadidos a votar conforme questões afetivas. O voto não é necessariamente um ato racional; o componente emotivo tem uma carga significativa. Enfim, oxalá que a nossa amarga cidade tenha uma corrida eleitoral serena e nutrida pelo espírito republicano.

(Tosta Neto, 11/10/2020) 

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