segunda-feira, 26 de outubro de 2020

EIS A QUESTÃO: PECAR OU NÃO PECAR? (TOSTA NETO)

– Venha, Filho! Abrace-me.

– Que saudade da senhora! Meu pai e Amanda estão em casa?

– Tua irmã está na escola. Joaquim, no trabalho.

– Mãe, terei um mês de recesso do seminário.

– Ótimo, Filho! Aproveitaremos ao máximo a tua presença.

– Agora, “matarei” a saudade do meu quarto.

– Vá. Arrumei-o com muito carinho.

– Obrigado, Dona Isabel!

– Por nada.

Lucas enveredou para o quarto. Desfez a mala, organizou as roupas e acendeu uma vela para Santa Mônica. Ele estava no terceiro ano do seminário. A realização do sonho sacerdotal regozijaria os familiares, sobretudo os avós maternos. Lucas nasceu e foi criado numa fervorosa família católica do interior da Bahia. Desde pequeno, a sua devoção a Deus despertara a atenção de todos. Lia diariamente a Bíblia e não perdia a missa dominical. O sacerdócio seria algo natural.

– Bom dia, Filho! Como você passou a noite?

– Maravilhosamente bem. Graças a Deus! E a senhora?

– Bem. Ah, amanhã receberemos uma visita. Tua prima Jéssica vem para cá passar uns 15 dias. Tua irmã está ansiosa. As duas se dão muito bem.

– Há tempos não vejo a Jéssica. Quando a vi, era muito pequena.

– E como está o seminário? – questiona Isabel de forma efusiva.

– Tudo caminhando bem. Estou evoluindo bastante. Cada vez mais fico convicto da minha vocação.

– Fico feliz, Lucas! Você será um ótimo padre.

– Deus te ouça! Só quero cumprir a missão aqui na Terra que o Pai destinou para mim.

– Amém!

– Amém!

Noite fria. O sereno umidifica as brácteas da Primavera. Lucas tece a leitura da obra Confissões de Santo Agostinho. Tinha o hábito de dormir cedo, fez a oração e deitou. Ao acordar, foi para o quintal contemplar os pássaros na Amoreira. Enquanto toma café:

– Irmão! Irmão! Jéssica chegou.

– Seja bem-vinda, Prima.

– Obrigada, Lucas!

– Irmão, à tarde, faça companhia a Jéssica, pois estarei na escola – admoesta Amanda.

– Tudo bem – responde Lucas.

– Jéssica, vamos tomar café. Fique à vontade.

– Vamos.

Tarde invernal. As gotas de chuva resvalam no telhado. Cheiro de terra molhada. As andorinhas se abrigam nas cumeeiras. Lucas dialoga com Jéssica:

– Há tempos não te vejo.

– Eu era bem pequeninha. Agora sou mulher! – Jéssica dispara um riso discreto e icônico.

– Você tem quantos anos?

– 16. E você?

– 21.

– Estamos na flor da idade – Jéssica levanta, senta ao lado do primo e cruza as pernas.

Visivelmente, Lucas ficou numa situação desconfortável. Jéssica trajava um vestido curto bem colado ao corpo, e o seu agradável perfume exalava pela sala. Após um “silêncio ensurdecedor”:

– Fale, Primo. E como está tua vida no seminário?

– Tudo em paz.

– Graças a Deus! – Jéssica coloca a mão na perna do agora nervoso Lucas.

– Vou. Vou aqui na cozinha.

– Vá. Não demore!

– Fique à vontade para mudar de canal.

Ao invés da cozinha, Lucas correu para o quarto e trancou a porta. Deitou e pensou: “Não sei o porquê de tanto nervosismo. Nunca aconteceu isso comigo. Será que foi a presença de Jéssica? Creio que não, afinal sou um servo de Deus. Preciso investigar a causa de tal sensação”.

Subsequente ao primeiro diálogo a sós, Jéssica não perdia a oportunidade de olhar para Lucas. No jantar, o jovem seminarista demonstrava pejo perante os olhares diretos e lascivos da prima. As conversas vespertinas não continuaram. Jéssica não desgrudava do celular. Quando os dois se “batiam” nos corredores, ela não titubeava em aproximar-se ao máximo de Lucas, até que num determinado dia, ocorreu um abraço. Lucas ficou estático com o gesto intempestivo da prima. Subitamente, uma energia diferente atingiu o âmago do seminarista. Jéssica encerrou o abraço e Lucas evadiu: “Deus, tenha piedade deste teu filho. O semblante sádico do pecado sorriu para mim. O meu corpo foi tomado pela concupiscência. Não posso negar que Jéssica despertou-me atração física. Senhor, conceda-me Luz e Sabedoria para enfrentar a tentação da carne. O pecado não pode derrotar o espírito”.

Certa tarde, Isabel saiu para fazer compras no supermercado. Pela primeira vez, Lucas e Jéssica sozinhos sob o mesmo teto:

– Primo, venha aqui no quarto. Estou me sentindo tão carente.

Ausência de resposta:

– Venha, Priminho!

Persistência do silêncio:

– É melhor você vir – bradou Jéssica em tom ameaçador.

Lucas estava na sala tentando concentrar-se na leitura das Sagradas Escrituras. Enfim, a surpresa:

– Posso sentar ao teu lado?

– O que é isso? – questiona o estupefato Lucas.

– Você gostou?

– Vá se vestir – Jéssica exibia uma provocante lingerie lilás de renda.

A atrevida ninfeta não atendeu a reivindicação do seminarista. Ela se aproxima sorrateiramente e coloca as mãos nos braços da poltrona. Lucas parecia uma presa encurralada, e esquivava-se das tentativas de beijo da prima. Num momento pontual, ficou sem forças e recebeu vários beijos. Talvez, para o alívio de Lucas, a campainha tocou e Jéssica saiu.

A Lua Cheia emergia imponente no horizonte. A brisa caia do dossel. Constrangido, Lucas nem acompanhou a família na janta. Enclausurado no quarto, incidiu em reflexões: “Deus de Israel, interceda por mim. Estou sendo tentado pelo diabo. Eu não posso deixar a treva vencer a luz. Jéssica é insana e petulante. Tão nova, em contrapartida, lasciva e devassa. É inegável que ela é bonita: cabelos longos e lisos, curvas corporais milimetricamente perfeitas e rosto fotogênico. Senhor, perdoe-me por tal pensamento. Infelizmente, na tarde de hoje, senti uma atração física avassaladora. Fiquei com vontade de beijá-la. Porém, não me é permitido consumar este desejo, afinal, sou um cordeiro de Deus. Se bem que, sou um mero mortal predisposto ao pecado. Estou acorrentado pela dúvida. Eis a questão: pecar ou não pecar?”.

Os uivos da ventania “imitam” os assobios das almas. A chuva fina confunde-se à neblina. O frio arrepia as entranhas. O relógio de parede indica meia-noite. Sono rebuscado de inquietações. O corpo vira para os lados a procurar a melhor posição. Neurônios a mil. A chama da vela de Santa Mônica é desestabilizada pelo fluxo de ar gerado pelo movimento de abertura da porta. Passos calculados contrastam com as batidas aceleradas do coração. Lucas vislumbra um vulto. A lâmpada é acesa. Em postura altaneira, Jéssica esbanja um curtíssimo vestido lilás. A leve vestimenta “desaparece”. Corpo nu e esbelto é revelado na mais intensa sensualidade. Lucas efetua dois passos até a prima. O beijo é concretizado. Línguas quentes e molhadas entrecruzadas. Elevação dos batimentos cardíacos A lúbrica Jéssica emite sussurros provocantes. O corpo de Lucas alcança um nível de tremor jamais sentido. Alternância entre movimentos lentos e rápidos. Gotas de suor surgem nos rostos. Olhos entreabertos. Gemidos agudos de prazer. Êxtase! Suor frio! Sensação de relaxamento! Entrementes à recuperação do fôlego, Lucas regressa à bendita reflexão: “Eis a questão: pecar ou não pecar? Resposta: valeu a pena PECAR”.

 

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