segunda-feira, 22 de março de 2021

A CAMISA PERFUMADA (TOSTA NETO)

2001: um tempo que ainda não existia WhatsApp e Instagram. O namoro virtual não era cogitado. O tête-à-tête era a principal “rede social”.

Renato tinha 20 anos; havia acabado de concluir o Ensino Médio e estudava sozinho para passar no vestibular. O jovem experimentava o amargor do desemprego. Como qualquer adolescente, ele vivia submerso em fantasias e desejos.

24 de junho. Noite fria e relativamente chuvosa. Pessoas espremidas em barracas de palha: era preciso conquistar qualquer mísero centímetro de território para fugir da atrevida chuva. Estrelas surgem no firmamento. Formigueiro humano. Renato recebe uma pergunta inesperada:

– Que horas são?

– 23h47.

– Obrigada!

– Por nada.

Renato parou e refletiu: “estou com blusa de frio. Como ela sabe que estou com relógio?”.

– Ei! Ei! Qual é o teu nome?

– Michelle. E o teu?

– Renato.

Surge uma terceira voz:

– Michelle, vamos!

– Renato, já, já, passo aqui para te ver.

– Está bem.

Emerge uma quarta voz:

– Renato, vamos sair daqui.

– Não. As meninas vão voltar.

– Que nada! Elas vão nos enrolar – afirma o convicto Anderson.

Ao acordar, a imagem de Michelle apareceu na mente de Renato: “eu gostei dela. É uma menina bonita. Lamentavelmente, não a reencontrei. Creio que ela gostou de mim. Aquela estratégia do horário foi reveladora. À noite, darei uma volta pela cidade. Se eu tiver sorte...”.

Jardim da Catedral. 25 de junho. Segunda-feira. Noite agradável. Céu estrelado. Os deuses estão conspirando a favor de Renato:

– Michelle! Que surpresa te ver aqui.

– Realmente. Ah! Voltei para conversar contigo.

– Acabei saindo. O meu amigo não quis ficar lá.

– Sem problema.

– Onde você mora? – indaga Renato.

– Em Salvador. E você?

– Aqui mesmo.

– Preciso ir. Minha prima e minha irmã estão me chamando.

– Tudo bem. Vá – comenta Renato com o semblante a espelhar lamentação.

– Eu desejaria te ver amanhã.

– Ótimo!

– Às 20h00. No Bosque. Pode ser?

– Combinado.

– Gato, até amanhã! – Michelle emite um sorriso encantador.

– Até, Gata!

Voltando para casa, Renato pensou: “que sorriso lindo! Ganhei a noite. Iríamos conversar hoje; infelizmente, não deu certo. Mas, não posso reclamar. Tive a sorte de encontrá-la”. Antes de dormir, Renato não conseguia tirar Michelle da cabeça. Concluiu: “amanhã, o dia será eterno. Vou jogar bola para ‘matar o tempo’”.

Praça do Bosque. 26 de junho. Terça-feira. 20h00. Sem delongas, Michelle abraça Renato:

– Estava com muita vontade de te ver. Pensei em você o dia todo.

– Eu também!

– Me abrace bem forte.

– Assim?

– Isso! Que abraço gostoso!

– Michelle, vamos para um lugar mais discreto.

– Concordo contigo. Estou louca para te beijar!

– Tua boca é linda! Vou beijá-la com gosto.

– Me beije logo! Me beije!

“Nossa! Que beijo gostoso! Uma delícia! Já estou cheio de tesão...”

– Ai, Michelle, ai. Você é demais! – exclama o ofegante Renato.

– Você ainda não viu nada. Me beije mais. Eu quero mais.

– Ótimo!

“Que menina fogosa! Vou colocar a mão no sutiã...”

– Gato, eu quero debaixo do sutiã.

“Que seios maravilhosos! Pequenos e durinhos. Vou lamber...”

– Ai, Michelle! Teus seios são deliciosos!

– Beije mais. São todinhos teus.

“Ai, que tesão! Meu corpo está tremendo. Michelle é demais...”

Os jovens tentam recuperar a respiração normal. Seus rostos estão desfigurados e expelem gotas de suor. Alguns segundos depois:

– Michelle, a química entre nós é muito forte.

– Com certeza! Eu jamais sentir uma energia assim.

– Eu também não.

– Preciso falar algo chato para você.

– Fale.

– Irei embora depois de amanhã.

– Já?! – questiona o decepcionado Renato.

– As aulas vão voltar para mim na próxima segunda e vou resolver algumas coisas em Salvador.

– Tudo bem.

– Porém, amanhã, desejo me despedir de você.

– Ótimo! Pode ser aqui mesmo.

– Aqui não. Será uma despedida diferente. Digamos: uma despedida completa. Você merece algo mais.

– Entendi, Gata!

– É o seguinte: os pais de minha prima irão viajar. Estou ficando na casa dela. Ela mora naquela rua próxima do Jardim da Catedral. Casa 69. A nossa despedida será lá.

– Perfeito! Nós ficaremos bem à vontade. Irei aproveitar ao máximo cada segundo da nossa doce despedida.

– Eu também!

Casa da prima de Michelle. 27 de junho. Quarta-feira. 19h07. A garota recepciona Renato:

– Entre, Gato! Boa noite.

– Boa noite.

– Tudo bem contigo?

– Estou ótimo. E você?

– Melhor agora. Minha prima e minha irmã estão assistindo televisão. Elas não vão nos incomodar. Vamos ficar naquele quarto.

Para Renato, os metros que o separavam do quarto pareciam intransponíveis. Seu coração estava acelerado. A distância intransponível não era tão intransponível assim. Michelle tranca a porta, olha diretamente nos olhos de Renato e ordena:

– Deite na cama e me observe.

Michelle efetua quatro passos cheios de sensualidade, tira calmamente o vestido e exibe uma lingerie branca de renda. Infelizmente ou felizmente, daqui para frente, o eu lírico não poderá utilizar uma linguagem explícita e apelará, em alguns momentos, ao recurso da metáfora. Prezado Leitor, ative vossa imaginação...

Beijos de língua alcançam o mundo da loucura. As batidas fortes dos corações, somadas, formam um “grande terremoto” no subsolo mental. Arquétipos do inconsciente são desenterrados. A fêmea se regozija com os fortes tapas. O corpo feminino é explorado na totalidade. Gemidos agudos ecoam pelo espaço. Lábios molhados de forma recíproca no ponto mais sensível. Michelle para e faz uma exigência:

– Eu quero sem camisinha!

– Perfeito, Gostosa!

Meneio masculino titubeante em tom de provocação. Massagens circulares e verticais. As janelas do paraíso estão cada vez mais intumescidas. O semblante feminino irradia ansiedade até incidir em clamor: “por favor! Não faça isso comigo. Eu não mereço”. Intermináveis segundos recrudescem a ânsia da jovem. Nada é eterno. Michelle fecha os olhos e emite um suspiro abissal. Movimentos lentos e rápidos, leves e bruscos. Borda da cama; pernas de Eva em V. Raiz quadrada de 16. Corpos em pé; perna suspensa de Isolda no braço de Tristão. Pégaso sem asas; 180 graus. O macho pousa sobre Afrodite. Os olhares tocam as profundezas da alma. Explosão química! Líquidos se fundem numa substância alva e viscosa. Ápice do prazer...

Casa de Renato. 28 de junho. Quinta-feira. 15h27. O jovem é indagado pela mãe:

– Renato, o que aconteceu contigo? Você não para de escutar Faltando um pedaço de Djavan.

– Mamãe, meu coração está literalmente faltando um pedaço. Estou apaixonado e a saudade “corta” o meu peito.

– Lamento, Filho. Ah! Vou lavar a camisa cinza que você usou ontem à noite.

– Não! De jeito nenhum!

– Por quê? – pergunta a mãe de Renato meio incrédula.

– A senhora não vai entender.

– Tudo bem!

Renato se afogou no oceano do pensamento:

“Nenhuma foto. Não solicitei o endereço dela para enviar uma carta. Não pedi o número do fixo. Absolutamente nada ou quase nada. Na verdade, não posso afirmar que não há nada, afinal, as lembranças de Michelle jamais serão apagadas da minha mente. Digamos que eu tenho uma recordação de Michelle. O perfume dela ficou impregnado na camisa cinza. Toda vez que eu senti saudades de Michelle, beijarei a camisa perfumada.”

 

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