segunda-feira, 1 de junho de 2020

O DUPLO PADRÃO DOS FUNDAMENTALISTAS PARTIDÁRIOS (RICARDO SAMPAIO)


Ontem fui questionado em um grupo de WhatsApp, desses com professores e alunos, sobre a conduta do Bolsonaro e seus assessores ao tomarem simultaneamente um copo de leite em uma de suas lives de quinta-feira. O questionamento foi seguido pela ressalva do ato ser associado ao simbolismo entre leite e supremacistas brancos e sua repercussão nas redes sociais.
Passei os olhos rapidamente na rede e verifiquei que o assunto de fato “bombava”. Não faltavam detratores para a ação do presidente, nem tão poucos alarmistas de mais uma teoria da conspiração. Mesmo os que escamoteavam suas ideologias inflexíveis, aqueles que costumeiramente usam palavras rebuscadas, citações pompeadas e dados distorcidos ou anacrônicos, não conseguiam disfarçar seu malabarismo intelectual para polemizar o insignificante. Era fato, o fundamentalismo partidário, mais uma vez, estabelecia um novo front de guerra, mais uma trincheira da guerra desvairada, pestilenta e, especialmente, improdutiva entre extremistas. Era a mesma percepção caótica de sempre: os bobões e as suas baboseiras.
Certamente que meu primoroso pupilo e seus notáveis colegas não iriam ficar sem resposta: “Infelizmente estamos vivendo em uma época de fundamentalistas partidários. Um período onde o discurso e as atitudes não são importantes, mas sim quem os fez. É a famosa guerra de narrativas associada à indignação seletiva. Mistura bombástica. Efeitos deletérios. Ascensão dos extremistas. Já vimos este filme...
O simbolismo faz parte das estruturas sociais como propagandas, religiões, fraternidades... É linguagem não verbal. E como tudo, pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. A grande questão ao analisar o símbolo é o analisador. Exemplo, a Cruz era um instrumento de tortura romana e depois se tornou um símbolo cristão; para os críticos do cristianismo essa é a prova cabal da relação dessa religião com a punição, com a dor e com a morte. Para o cristão uma referência ao sacrifício divino em prol da humanidade, da superação da morte, da vitória do amor. E aí, quem tem razão? Ou melhor, qual a linha da análise você é adepto? Sacou? Em suma, desgraçadamente, a verdade social é circunstancial e o correto é o lado ao qual a pessoa se posiciona.
Feito tais observações, acredito que o consumo do leite na live não faz a menor diferença. Os Bolsonaristas viram uma celebração do agronegócio e o sucesso que a indústria brasileira de lacticínios alcançou, enquanto os anti-Bolsonaristas viram uma mensagem velada de um supremacista branco. Resumindo: para determinadas dúvidas não há resposta concreta, mas nunca faltarão especulações! ”
Se pudesse voltar no tempo, apenas complementaria meu texto com uma inspiração que partiu do Antoine de Saint-Exupéry: para enxergar claro é preciso olhar para diversas direções.

(Ricardo Sampaio, 01/06/2020)

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