quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O MITO DE ÍCARO E O SONHO DE VOAR (TOSTA NETO)

O mito é a primeira forma de explicação da origem de todas as coisas. É notório que as diversas versões mitológicas apresentam características comuns: narrativa sobrenatural, linguagem metafórica e fé religiosa. Poderíamos afirmar que o mito é a “certidão de nascimento” de um povo, logo, antes da filosofia e da ciência, a gênese do Universo era explanada pela mitologia. Desde o Paleolítico, os nossos ancestrais lidavam com o mito, por conseguinte, a experiência mítica é bem mais longa que o pensamento filosófico-científico. Acredito piamente que o ser humano é mais mítico do que racional, credo que me persuade a cunhar o seguinte conceito: homo mythicon. O fato é que se quisermos entender a humanidade com amplitude precisamos considerar seu elo à mitologia.

Neste singelo artigo, analisaremos os ensinamentos implícitos no mito grego citado no título. Ícaro, filho do genial arquiteto Dédalo e duma escrava, rebenta de Perséfone. A avó materna do herói em questão, considerada a deusa das ervas, flores, frutos e perfumes, era filha de Zeus e Deméter. Perséfone era tão linda que fora raptada por Hades, deus do mundo subterrâneo. No senso comum, o Mito de Ícaro é associado exclusivamente ao eterno sonho da humanidade: VOAR. Porém, se investigarmos detidamente o mito, encontraremos outras reflexões significativas sobre a psique humana. Apesar da linguagem rebuscada de metáforas e devaneios, a mitologia ajuda a desvelar vícios e sentimentos entranhados no inconsciente coletivo.

O pai de Ícaro era reconhecido como o mais competente arquiteto e inventor de Atenas, todavia ficara incomodado com o talento do seu sobrinho. Inebriado pela inveja, Dédalo não titubeou e o matou. Horrorizadas, as autoridades atenienses puniram Dédalo com o exílio na Ilha de Creta. Esta passagem revela um dos sentimentos mais representativos da humanidade: a inveja. Traçando um paralelo com a tradição judaico-cristã, o livro de Gênesis também explora tal sentimento na famosa história de Caim e Abel. A inveja, logicamente, enverada a outrem, demonstra aquilo que o invejoso não tem ou desejaria ter, portanto, a existência da humanidade sempre trará consigo o mais simbólico pecado capital.

É válido salientar que Minos era o rei de Creta na época do degredo de Dédalo. O monarca ordenou que o hábil arquiteto construísse um labirinto para o Minotauro (filho de Pasífae, esposa de Minos, com um touro divino). Insofismavelmente, o símbolo da traição real deveria ser preso (escondido) no labirinto. Após o Minotauro ser morto pelo herói Teseu, Ícaro e o pai ficaram aprisionados no labirinto. Instigado pelo senso de criatividade, Dédalo concluiu que as muralhas seriam transpostas pela habilidade de voar; com a ajuda do filho, ele construiu asas com penas de gaivota e cera de abelha. Enfim, saíram do labirinto e, consequentemente, da Ilha de Creta. Dédalo fizera a seguinte recomendação para Ícaro: não voe perto do Sol ou próximo ao mar. O calor solar derreteria a cera e o vapor d’água deixaria as asas pesadas, condições que impediriam um voo seguro.

Ícaro, deslumbrado pela sensação de poder e liberdade, voara cada vez mais alto, aproximando-se perigosamente do sol. Como previu Dédalo, a cera derreteu, as asas se esfacelaram, Ícaro caiu no Mar Egeu e morreu afogado. O local da queda do inconsequente herdeiro de Dédalo passou a ser chamado de Mar Icário. Qual é a mensagem transmitida por esta passagem? É preciso escutar os conselhos dos mais velhos, fator relegado por Ícaro. Ademais, agir com moderação é imprescindível, por sinal, na filosofia aristotélica, a vida moderada é o caminho para conquistar a felicidade. Esta concepção também foi sublinhada no pensamento de Epicuro, cujo usufruto dos prazeres perpassa pela moderação. A humanidade necessita atingir o meio-termo, o tão almejado ponto de equilíbrio, outrossim, é preferível evitar extremismos. Não obstante, Ícaro adotou um polo da extremidade e pagou com a própria vida.

Inegavelmente, o icônico Mito de Ícaro personifica o sonho de voar, afã que está mui presente no imaginário popular. Quem nunca sentiu “aquele frio na barriga” antes e durante a decolagem do avião? No interior, há aquela euforia perante os rasantes de um helicóptero. O voo simplório de um drone usurpa muitos olhares curiosos. Essas evidências nos instigam a afirmar que o ato de voar suscita sedução e encantamento. Creio que nós, reles mortais e racionais, sentimos inveja dos pássaros. A humanidade deseja a liberdade, por conseguinte, tal anseio ecoa na capacidade de voar. Prezado Leitor, até aqui, só fiz críticas veladas ao comportamento de Ícaro; reconheço que devo fazer um mea-culpa e ampliar o campo de visão. Sem dúvida, Ícaro contemplou uma paisagem deslumbrante, algo que só ele viu e que ninguém pode descrever. Naqueles instantes anteriores à queda no Egeu, Ícaro foi livre, feliz e privilegiado, pois testemunhara a beleza estonteante e excelsa da Terra.

(Tosta Neto, 18/11/2020)

 

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