quinta-feira, 25 de julho de 2019

"ANALOGIA ENTRE A REALIDADE E A COMÉDIA EM ARISTÓTELES" POR TOSTA NETO


Prezado Leitor, na aula de filosofia sobre A Questão da Beleza, a estudante Lara Queiroz fez a analogia entre a realidade e o conceito de comédia em Aristóteles, exercício intelectual que me concedeu o insight para escrever este modesto artigo. A discussão de beleza engendra uma série de interpretações; no plano contemporâneo, a beleza é variável e relativa, cuja abordagem fica no plano das aparências, isto é, “a beleza está nos olhos de quem vê”. Na Grécia Antiga, o conceito de beleza suplanta o campo da estética, apontando um sentido de harmonia.
O belo no mundo grego é a sabedoria, o equilíbrio, a proporção das formas, a negação dos polos antagônicos. O belo não tem aparência estonteante, outrossim, é aquele que tem a vida norteada pelo senso de justiça. A Beleza (Afrodite) não transita nas extremidades. A Beleza tem Eros como serviçal. Eros é o próprio amor. Na obra A República, Platão narra a gênese de Eros. Certo dia, houve uma grande festa entre os deuses para comemorar a nascimento de Afrodite. Entre os convivas estava Poros, deus da riqueza; no final do banquete, como sempre faz, Penúria veio mendigar. Embriagado de néctar, Poros adormeceu e Penúria deitou-se ao seu lado, concebendo o Amor (Eros). O Amor foi gerado no dia do nascimento da Beleza.
Explicitamente, na filosofia platônica, a beleza está alinhada à harmonia e não é encontrada no mundo sensível (concreto), estando presente no mundo inteligível (abstrato), o mundo das formas perfeitas e imutáveis. Por conseguinte, a plenitude da beleza não é exequível no plano da realidade, ocorrendo somente lampejos do verdadeiro belo. O mundo sensível é uma cópia imperfeita do mundo inteligível. A realidade é uma extensão defeituosa das formas. Platão deslocou a explanação supracitada à arte. O fundador da Academia salientou que a arte é mimese (do grego mímeses: “imitação”), ou seja, a cópia da realidade, pois a arte imita a realidade. Partindo do pressuposto que a arte é uma cópia do mundo sensível, este último que é uma cópia do mundo inteligível, conclui-se que a arte é a cópia das cópias. 
O discípulo mais famoso de Platão, Aristóteles, sublinhou a arte como uma imitação da vida. Na obra Poética, o Estagirita efetuou uma magnífica análise da arte. No tópico que aborda a poesia, Aristóteles classificou-a em três categorias: tragédia, epopeia e comédia. A tragédia é a narrativa sobre a tragicidade da vida, suscitando no público uma sensação de catarse (purificação). A epopeia é a exaltação de feitos heroicos. A comédia é a imitação do grotesco, algo defeituoso que provoca risos no público. Em contraposição à beleza, a comédia é o desequilíbrio, aquilo que é feio e disforme. A comédia retrata as extremidades e os exageros, denotando os defeitos que permeiam a existência humana.
Inegavelmente, a realidade e a comédia têm um enlace em inúmeros ensejos. Tendo como horizonte o pensamento platônico, o mundo concreto que vivemos é uma cópia limitada do mundo das ideias; em si, a vida concreta é um emaranhado de coisas disformes. Como foi problematizado no parágrafo anterior, a comédia é a ode ao disforme, logo, a realidade é a matéria-prima da comédia. O mundo sensível emana o repertório cômico da existência. Enfim, poderíamos inferir que a realidade é uma grande comédia.

(Tosta Neto, 25/07/2019)

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