sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O NATAL SEGUNDO O EVANGELHO DE LUCAS

O Natal sempre desperta esperança e boas-novas no coração dos cristãos. O nascimento do Filho de Deus é a renovação do vínculo entre o Criador e a humanidade. Neste artigo, faremos uma reflexão sobre o Natal tendo como horizonte o Evangelho de Lucas. Na tradição cristã, Lucas, o médico que acompanhou Paulo, é considerado o autor do terceiro evangelho e do Atos dos Apóstolos. Logo na parte inicial do evangelho, Lucas se propõe a narrar os fatos da vida de Jesus, reconhecendo a importância da oralidade enquanto fonte histórica. Nas entrelinhas, antes mesmo do nascimento, Cristo é apresentado como o caminho da libertação e o começo de uma história. Lucas se mune de artifícios historiográficos para contar o itinerário de Jesus Cristo, abrindo um novo horizonte no enlace entre Deus e os seres humanos.

No tempo de Herodes, rei da Judeia, vivia um importante sacerdote, Zacarias, esposo de Isabel. Certo dia, ele recebera a visita do anjo Gabriel: “Disse-lhe, porém, o Anjo: ‘Não temas, Zacarias, porque tua súplica foi ouvida, e Isabel, tua mulher, te dará um filho, ao qual porás o nome de João’” (Lc 1,13). Eis a revelação do nascimento de João Batista, que seria grande perante o Senhor e abriria caminho ao advento do Messias. João é o baluarte dos novos tempos, aquele que antecedeu o Cristo, batizando-o no rio Jordão. Inegavelmente, as trajetórias de Jesus e João Batista estão interligadas desde sempre, status revelado pelo evangelista nesta poética e simbólica passagem: “Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo” (Lc 1,41). Por conseguinte, afirmamos com convicção que João Batista está incluso na certidão de nascimento do cristianismo. Ademais, seu pai o exalta como profeta do Altíssimo, aquele que irá na frente para preparar-lhe o caminho e anunciar a salvação ao povo.

Assim como João Batista, o nascimento de Jesus fora anunciado pelo anjo. Em Nazaré, Maria, esposa de José, foi surpreendida pela aparição do ser angelical: “O Anjo, porém, acrescentou: ‘Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus’” (Lc 1,30-31). Salientemos também o elo entre Maria e Isabel, cujos filhos teriam os seus passos conectados; a esposa de Zacarias exaltara a grandiosidade de Maria, denominando-a bendita entre as mulheres pelo fato de carregar no seu ventre o rebento de Deus. No desenrolar textual, Lucas associa Cristo à luz que iluminará o povo e cunhará uma nova etapa na história. Obviamente, Jesus é imprescindível para angariar a paz, isto é, o alcance da tão almejada plenitude do ser. O evangelista é categórico ao afirmar que o Filho do Pai é o pilar desta fase histórica, isto é, o Cordeiro de Deus é a própria personificação das boas-novas.

No contexto histórico da concepção de Jesus, o imperador Otávio Augusto publicara um decreto, ordenando o recenseamento em todo o Império Romano. Tal medida objetivava potencializar a eficiência da arrecadação de impostos, onerando de forma significativa os mais pobres. Neste ambiente de poder e opressão, Cristo viria para libertar os pobres no plano espiritual, questão que desagradaria os governantes e os chefes religiosos da região. Claramente, o evangelista liga o Filho de Deus aos pobres e oprimidos. Enfim, voltemos à temática do artigo. Prestemos atenção nas palavras do evangelista: “Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (Lc 2,6-7). Doravante, a história do mundo ocidental não seria mais a mesma.

Inestimável Leitor, conforme a tradição judaica, Jesus passara pela circuncisão e fora oferecido ao Senhor, porque todo primogênito pertencia a Deus. Em seguida, Cristo foi resgatado pelos pais por intermédio de um sacrifício. Nesta cerimônia, a mãe deveria ser purificada em troca de um cordeiro, mas quem era pobre, oferecia um par de rolas ou dois pombinhos. Mais uma vez, Lucas sinaliza que Jesus viera para os pobres. É válido enfatizar, como bem sugere este parágrafo, que o Filho de Deus crescera imerso no judaísmo. Apesar da força da tradição judaica, Jesus desafiou o status quo e expôs uma religiosidade que negaria a pompa das riquezas, propondo uma fé centralizada no desprezo material. Portanto, através das argumentações efetuadas por Lucas, inferimos que Jesus Cristo é o pastor que libertará os pobres das agruras da existência.

Oportunamente, não podemos olvidar: Lucas nomeia Cristo como um sinal de contradição, porquanto suas pregações contrariaram as autoridades romanas e judaicas. Ouçamos o evangelista: “Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: ‘Eis que este menino foi posto para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição’” (Lc 2,34). Tal contradição tem como ponto de partida o 25 de dezembro, fato que dividirá a história do Ocidente. O Natal é um ícone de cisão e aponta para uma religiosidade mais intimista que não ficará engessada pelo dogmatismo mosaico dos doutores da lei. Jesus Cristo veio ao mundo para emancipar a humanidade e apresentar-lhe o caminho da salvação, logo, o Natal celebra a renovação da esperança e o anúncio das boas-novas, princípios que devem estar pujantes no âmago do indivíduo. O nascimento do Menino Jesus é um evento tão abissal e nobre que atinge também o coração daqueles que não são cristãos. Independentemente do credo religioso, o Natal nos concede expectativas em prol da consumação de uma vida melhor. Celebremos o Natal!

(Tosta Neto, 25/12/2020) ** Texto revisado em 25/12/2025


 

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