segunda-feira, 19 de junho de 2023

A EVOLUÇÃO TÁTICA DE GUARDIOLA (PARTE 2)

Inestimável Leitor, a nossa intenção é tentar engendrar uma concisa reflexão tática, logo, deixemos para outro ensejo a passagem de Guardiola pelo Bayern, a propósito, quem quiser entendê-la, leia o livro Guardiola Confidencial de Martí Perarnau. Voltemos ao nosso mote reflexivo. Guardiola foi contratado pelo Manchester City em fevereiro de 2016. Nos Citizens, diferentemente do Bayern, não existia a prerrogativa única de medir o sucesso profissional com o êxito na Champions League. Guardiola chega no City tendo a incumbência de “solidificar” tal clube no cenário inglês e posteriormente na Europa. Na temporada de estreia na Liga Inglesa, o time azul de Manchester atingiu o 3º lugar, mas, seguidamente, houve o alcance do bicampeonato e, no plano hodierno, ostenta um tricampeonato. O trunfo de 6 títulos seguidos só não foi consumado, porque o Liverpool fez uma campanha fantástica em 2020. Façamos uma menção especial à performance na temporada 2017-2018, quando o Manchester City estabeleceu a marca de 100 pontos, algo inédito na história do futebol inglês.

É notório que a Premier League é o campeonato nacional mais competitivo do mundo, por conseguinte, não demoraria para que o City começasse a se impor na Liga dos Campeões, haja vista, o vice-campeonato em 2021 e a condição de semifinalista em 2022. Diante do “insucesso” na esfera europeia, uma falácia que tentava diminuir a genialidade de Guardiola, emanava: “Guardiola não ganha Champions sem Messi, Xavi e Iniesta”. Com o título invicto na maior e melhor competição de clubes do mundo, este argumento infundado evaporou. Guardiola não necessitava vencer a Champions League pelos Citizens para provar o seu status de gênio, mas com tal triunfo, a mínima dúvida sobre sua capacidade não tem mais sentido. Para quem gosta de estatística, Guardiola amealhou mais um triplete (Campeonato Inglês, Copa da Inglaterra e Liga dos Campeões) na carreira, único técnico no futebol europeu com essa marca no currículo.

(Tosta Neto, 19/06/2023)

 

sábado, 17 de junho de 2023

A EVOLUÇÃO TÁTICA DE GUARDIOLA (PARTE 1)

No século XXI, não há um técnico tão influente na ciência dos esquemas táticos como Josep Guardiola. Desde a estreia no time principal do Barcelona na temporada 2008-2009, o treinador catalão vem ganhando taças em escala industrial. O estilo de Guardiola se transformou em sinônimo de futebol vistoso e competitivo; até os mais leigos na literatura do esporte mais popular do planeta, intuem que seu molde de jogo flerta com o “Futebol Arte”. O padrão Guardiola teve como consequência o estabelecimento de propostas táticas (antídotos) para anulá-lo; eis alguns exemplos: a Inter de Milão (2010) de Mourinho na semifinal da Champions League apresentou um sistema defensivo insano, celebrizado com o apoio de Eto’o na lateral; o Liverpool de Klopp com o gegenpressing (perde-pressiona), tirou o time de Pep da zona de conforto, obtendo vitórias contundentes na Liga dos Campeões e na Premier League.

É evidente que Guardiola não fizera uma grande revolução tática, porém aprimorou padrões, haja vista o modelo implantado por Johan Cruyff no Barcelona. Numa entrevista, Pep revelou que não sabia nada de futebol até ser treinado pelo gênio holandês. De forma explícita, Guardiola é discípulo de Cruyff, este por sua vez, seguiu os passos de Rinus Michels, o qual foi eleito pela FIFA e pela renomada revista France Football como o maior técnico de todos os tempos. Na década de 70, Michels revolucionara o paradigma futebolístico com o conceito de “Futebol Total”, consumado pela Holanda na Copa do Mundo (1974), seleção nostálgica liderada por Cruyff, Rensenbrink e Neeskens. Este modelo consistia numa veemente posse de bola e, na marcação, os atletas não tinham um posicionamento fixo, efetuando uma blitzkrieg para recuperar imediatamente a pelota. A intencionalidade do técnico holandês era ter o controle total do jogo. No Mundial de 74 na Alemanha, os adversários ficaram perplexos perante um estilo de jogo tão caótico e avassalador. “Infelizmente”, a Holanda perdeu a final para os donos da casa por 2 x 1, em contrapartida, tal revés não apagou a maior revolução tática na história do futebol.

Após comandar o Barcelona B, Guardiola assumiu a equipe de cima; na primeira temporada, conquistou todos os títulos possíveis. Aquele Barcelona 2008-2009, expôs certos conceitos da Laranja Mecânica de Michels, como a posse de bola exacerbada e a troca de passes curtos. Contudo, havia uma diferença na marcação: o Barça defendia com um posicionamento fixo, cujo cada jogador ocupava o seu espaço. A engrenagem catalã “afinada” no 4 – 3 – 3, funcionava como uma orquestra, composta por craques do naipe de Messi, Xavi, Iniesta e Busquets. O tiki-taka, evolução tática do Carrossel Holandês, continuou a imperar no Barça, culminando no triunfo de mais uma Champions League em 2011. Subsequente a quatro anos frenéticos de trabalho, Guardiola se despediu do Barcelona com o status de maior técnico da história do clube blaugrana.

(Tosta Neto, 17/06/2023)

 

domingo, 16 de abril de 2023

COMO JOGA O FLUMINENSE DE FERNANDO DINIZ? (TOSTA NETO)

Após a performance soberba na partida de volta da final do Campeonato Carioca contra o Flamengo (atual campeão da Libertadores e da Copa do Brasil), o estilo tático de Fernando Diniz entrou em evidência. Nesta concisa reflexão, apresentaremos o funcionamento da engrenagem tática do talentoso técnico do Tricolor das Laranjeiras. A priori, em trabalhos anteriores, Diniz expôs um conceito futebolístico arrojado, porém por causa da ausência de títulos, as análises de seu perfil tático eram quase sempre obnubiladas. É óbvio que o triunfo é imprescindível, mas para efeito avaliativo é preciso ater-se à tática em si e identificar os movimentos que constituem a engrenagem supracitada. Subsequente ao título do Carioca, talvez tenhamos por parte da mídia esportiva uma avaliação mais equilibrada.

Façamos a reflexão anunciada. De modo nítido, independentemente dos desenhos táticos (4 – 4 – 2, 4 – 2 – 3 – 1), os times de Diniz demonstram muita compactação, cujos atletas jogam próximos e buscam passes curtos e inversão de posições que confundem os adversários; nesta perspectiva, diante da proximidade espacial, a probabilidade de erro é minimizada, elevando significativamente a posse de bola. Essa dinâmica beneficia bastante Paulo Henrique Ganso, pois não há a necessidade de correr médias e grandes distâncias para ter contato com a pelota. No geral, o estilo de Diniz não prescinde da posse, porque sem a propriedade da bola o oponente ficará impossibilitado de efetuar o gol.

Prezado Leitor, por causa da proeminência da posse de bola, o estilo de Diniz é confundido com o de Guardiola. Apesar da explícita semelhança, há uma diferença básica que iremos apontar neste parágrafo. O consagrado técnico do Manchester City é adepto do jogo posicional, no qual, cada jogador guarda de forma fixa a sua posição e defende com rigor o seu espaço. Em contrapartida, segundo depoimento do próprio técnico do Fluminense, ele é adepto do jogo aposicional. Neste estilo, o atleta não tem um lugar fixo e inverte de posição com seu companheiro, haja vista o gol de Marcelo na final com o Flamengo; Marcelo é lateral-esquerdo, todavia no gol em questão, ele surgiu no setor ofensivo direito e marcou um golaço que abriu a contagem para o Fluzão.

É notável que nenhum time vive só de posse de bola e jogadas ofensivas; abordemos o funcionamento do mecanismo de marcação. Por ter uma formação compacta, logo após a perda de bola, o Fluminense inicia o gegenpressing (perde-pressiona), estilo de marcação consagrado pelo Liverpool de Klopp em 2019; tal movimento tem como incumbência recuperar rapidamente a bola e retomar o controle da partida com passes curtos e rápidos atrelados à troca de posições. O ponto fraco deste modelo de Diniz é o lançamento de bolas longas por fora do bloco de marcação, fator que pode deixar a defesa desguarnecida; para acometer esse calcanhar de Aquiles, é fundamental contar com atletas rápidos nas extremidades do bloco de marcação.

O sistema de jogo de Diniz conta com uma peça primordial: André. O promissor meio-campista encosta no goleiro e nos zagueiros para iniciar a construção de jogadas. Façamos uma menção especial ao zagueiro Nino e ao goleiro Fábio que dividem tal empreitada com o camisa 7 do Tricolor Carioca. Apesar do insucesso na saída de bola em algumas experiências pregressas, Diniz demonstra uma exacerbada convicção na sua proposta de jogo. Perante os argumentos desenvolvidos neste artigo, afirmamos o quão Fernando Diniz é um técnico diferenciado em meio à mesmice e previsibilidade que persistem entre os técnicos brasileiros. Uma vez mais, bradamos: a análise não pode ter como único critério o currículo recheado de taças, por conseguinte, fiquemos concentrados na essência do sistema tático. A tendência é que Diniz continue a fazer um ótimo trabalho que trará mais títulos para a sua carreira. Enfim, é uma satisfação contemplar o Fluminense de Fernando Diniz jogar.

(Tosta Neto, 16/04/2023)

 

domingo, 12 de março de 2023

PREMIER LEAGUE: A NBA DO FUTEBOL? (TOSTA NETO)

É notório que a NBA é a melhor competição de basquete do mundo. Curiosamente, tal competição supera até o campeonato mundial deste esporte. Diante do crescimento qualitativo da Premier League, o fenômeno da NBA pode repetir-se no futebol? De antemão, a resposta não é tão simplória, porém não fugiremos de efetuar uma reflexão. Salientemos que o artigo em questão ficará restrito ao âmbito dos clubes.

A cada ano, o Campeonato Inglês evolui, ficando cada vez mais difícil a repetição do Big Six (Liverpool, Manchester United, Chelsea, Arsenal, Manchester City e Tottenham) na classificação final. Times considerados de segundo escalão estão mais presentes nas primeiras colocações; façamos uma menção especial ao Leicester que atingiu o título na temporada 2015-2016.

No geral, os clubes da Premier League recebem altos investimentos, fator que possibilita o advento de grandes jogadores, os quais, sentem-se também atraídos pelo salário pago em Libra Esterlina, moeda mais valorizada que o Dólar e o Euro. Ademais, toda rodada tem várias partidas interessantes e as equipes da parte inferior da tabela impõem muitas adversidades aos times mais fortes. Não esqueçamos da inconteste qualidade de jogo: passes bem executados, intensidade física exacerbada e destreza na aplicação tática.

Prezado Amante do Futebol, não podemos delinear a Premier League como uma competição maior que a Champions League, pois esta última tem uma aura especial que “sacraliza” aqueles que a conquistam, em contrapartida, o Campeonato Inglês talvez tenha uma dinâmica de jogo mais insana, sendo uma empreitada dificílima o alcance do título. Por ser uma competição de pontos corridos, a regularidade é imprescindível, cuja condição dilui a influência da imprevisibilidade, a qual, é um quesito de maior peso nos torneios eliminatórios. De qualquer forma, entre as ligas nacionais, a Premier League já pode ser considerada a NBA do esporte mais popular do planeta.

(Tosta Neto, 12/03/2023)

 

quinta-feira, 14 de julho de 2022

JUST FONTAINE: ARTILHEIRO DA COPA DE 58

Fontaine marcou 13 gols em 6 jogos na Copa do Mundo de 58 na Suécia. O artilheiro da seleção francesa alcançou a impressionante média de 2,17 gols por partida. Tal desempenho o colocou como o 4° maior artilheiro da história dos mundiais. Difícil imaginar que outro jogador consiga superar a marca do artilheiro francês.

(Tosta Neto, 14/07/2022)

 

sábado, 30 de abril de 2022

THIAGO ALCÂNTARA: MAESTRIA E ELEGÂNCIA (TOSTA NETO)

Quem assistiu Liverpool e Villarreal pelo jogo de ida (27) das semifinais da Champions League, teve o prazer de contemplar a atuação soberba de Thiago Alcântara. Presenciou-se uma performance brilhante, sobretudo nos passes e na inversão de jogadas. Após a partida, o filho do tetracampeão Mazinho foi coroado com o troféu de melhor jogador em campo. A propósito, o futebol apresentado pelo Liverpool nesta temporada é muito contundente e competitivo, equiparando-se àquele time que conquistou a Champions em 2019.

Voltemos à temática em questão. Thiago é um atleta que tem uma “visão de águia” do território: distribuição precisa de passes que margeia à perfeição, condução do ritmo de jogo e descoberta de espaços pouco prováveis. O camisa 6 dos Reds atua de cabeça erguida, enxergando literalmente de cima os vazios espaciais e os companheiros que apresentam o posicionamento mais favorável. O futebol, como qualquer esporte, envolve o tempo e o espaço: o atleta que recebe a bola com espaço terá tempo de reação para escolher a melhor opção, ou aquele que tem tempo hábil para jogar irá explorar com mais eficiência o espaço disponível. Tempo e espaço são conceitos indissociáveis no futebol, por conseguinte, um jogador do calibre de Thiago Alcântara entende amplamente tal lógica.

Prezado Leitor, subsequente ao belíssimo desempenho na final da Liga dos Campeões entre Bayern e PSG em 2020, Thiago rumou para Liverpool; tal contratação foi a mais pontual e impactante daquela janela de transferências. Por causa de problemas de lesão, Thiago não demonstrou o seu melhor futebol, todavia, nesta temporada, ele potencializou ainda mais a qualidade do meio-campo da equipe de Klopp. Thiago Alcântara é um verdadeiro maestro dentro de campo: rege a orquestra futebolística com exímia genialidade e alterna de forma equilibrada a aceleração e a cadência das jogadas. Assistir Thiago Alcântara é testemunhar a evolução tática e técnica do próprio futebol, observando-se também a resolução de problemas em um espaço de jogo cada vez mais tenso, caótico e escasso.

(Tosta Neto, 30/04/2022)

 

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